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Hoje tem futebol?

Então tire as crianças da frente da TV

Camus

“Car, après beaucoup d’années ou le monde m’a offert beaucoup de spectacles, ce que finalement je sais sur la morale et les obligations des hommes, c’est au sport que je le dois, c’est au R.U.A. [Racing Universitaire d’Alger] que je l’ai appris.”

Albert Camus¹

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O texto acima foi publicado pela primeira vez em 15 de abril de 1953, num boletim do time argelino no qual um jovem Albert Camus jogou como goleiro; nele, o escritor revela que, no fim das contas, deve ao esporte (ao futebol) tudo o que aprendeu sobre a moral e as obrigações dos homens

Não duvido que muitos jogadores de futebol (não todos) continuem aprendendo, em seus ambientes de trabalho, as competências mencionadas por Camus. Mas o mundo mudou muito de 1953 para cá, e com ele o futebol, que se tornou um negócio bilionário envolvendo não apenas bilheterias, mensalidades de associados e venda de jogadores, mas também patrocínios, direitos de televisão e apostas, muitas apostas.

Com tanto dinheiro envolvido, não é de admirar que o futebol atual tenha se tornado competitivo ao extremo, bem mais parecido com o atletismo do que com o balé, e que a corrupção tenha se tornado um fenômeno generalizado.

Voltarei a esse tema depois, pois ele dá margem a desdobramentos interessantes. Por ora, tenho apenas uma pergunta a fazer.

O que diria Albert Camus (que também era dramaturgo) sobre as (péssimas) atuações dos jogadores de hoje, que por qualquer motivo (ou até sem motivo) levam as mãos ao rosto e caem no gramado contorcendo-se em fingidas dores? E se alguém lhe dissesse que um espetáculo como esse não é apropriado para menores de idade — o que será que ele responderia?

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1. «Ce que finalement je sais sur la morale…». Le Footchiste, 2013.05.14. URL: <https://www.footichiste.com/football-albert-camus/>. Acesso em 2025.10.30.

2. Esse texto foi republicado numa revista francesa em 1957, ano em que Camus ganhou o Nobel de Literatura. The morality of football and the philosophy of Albert Camus, IN Scottish Sport History. URL: <https://www.scottishsporthistory.com/sports-history-news-and-blog/the-morality-of-football-and-the-philosophy-of-albert-camus>. Acesso em 2025.10.30.

Fonte: Andy Mitchell

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Conceito Filosofia Linguagem O que é?

O que é coincidência?

O verbo co-incidir significa “incidir ao mesmo tempo”. A palavra é formada de maneira semelhante a co-operar, “trabalhar em conjunto”, e a co-memorar, “celebrar conjuntamente (de forma coletiva) uma memória”.¹

Vejamos um exemplo de coincidência: uma esposa passa em frente a um hotel no exato momento em que seu marido sai de lá com outra mulher.

Por que, nesse exemplo, se diz que houve uma coincidência? Porque marido e esposa, sem que tenha havido uma combinação prévia entre eles, co-incidiram no tempo e no espaço. A coincidência, portanto, é um simples fato que, como qualquer outro, reclama uma explicação. Por que a esposa passou em frente ao hotel justo naquele momento? É possível enumerar várias hipóteses. Talvez ela tenha sido advertida por um detetive particular; talvez ela tenha sido guiada por algum indício ou, quem sabe, por uma intuição; talvez sua presença no local tenha sido meramente casual; talvez exista algo semelhante a uma providência divina.

Pode-se afirmar ou negar cada uma dessas hipóteses (e muitas outras), mas a coincidência nela mesma é o fato (o problema) a ser elucidado.

Afirmar que o acaso explica uma determinada coincidência, portanto, é apenas enunciar uma hipótese entre outras. Isso equivale a dizer, numa linguagem mais técnica, que a relação entre a noção de coincidência e a noção de acaso é sintética, e não analítica: é possível unir as duas noções por meio de um juízo, mas a noção de acaso não está implicada na noção de coincidência.

É exatamente por isso que, para afirmar que uma coincidência ocorreu por acaso, não basta chamar, tautologicamente, a co-incidência de… coincidência. É obrigatório juntar à palavra um marcador linguístico que exclua todas as outras possibilidades: por exemplo, “foi uma simples coincidência”, “foi mera coincidência”, “foi apenas uma coincidência”. O papel desses marcadores é reduzir a coincidência ao puro fato da co-incidência e excluir, de antemão e em definitivo, até mesmo a possibilidade de propor uma hipótese que viesse a explicá-la por uma razão qualquer. Não é por outro motivo que os avisos legais exibidos em filmes trazem sempre um desses marcadores: ainda que a ficção cinematográfica e a realidade fora das telas possam co-incidir na imaginação do espectador, qualquer semelhança é mera coincidência, tradução de purely coincidental.

Assim, quando uma pessoa diz que “não existe coincidência“, é porque ela não chegou a refletir sobre aquilo que está dizendo; e o que ela está realmente tentando dizer é que “nada acontece por acaso“. Ouvir alguém dizer que “não existe coincidência” dói nos ouvidos de quem aprecia o rigor no uso das palavras, e essa dor puramente linguageira independe de qualquer crença ou afirmação filosófica sobre a existência ou inexistência do acaso.

Pode-se dizer, entretanto, que a confusão em torno dessa palavra é um daqueles casos quase “benignos” de imprecisão linguística: causados pela falta de reflexão sobre aquilo que se está a dizer, eles empanam a língua mas não acarretam maiores consequências práticas. Infelizmente, como se verá em futuras postagens da série “O que é?”, existem também imprecisões que eu hesitaria em chamar de benignas, produzidas de forma deliberada para confundir o debate público.

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1. Há muitos anos vi uma escritora brasileira (cujo nome não irei declinar) dizer, no programa Sem Censura, que a palavra comemorar deriva de “comer” e “morar”.

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Filosofia Sociologia Traduções

ERRATA: As Leis Sociais

Gabriel Tarde - As Leis Sociais [2012]

Pretendo revisar em breve minha tradução do livro As Leis Sociais, de Gabriel Tarde. Esta página será atualizada até que sejam listados todos os erros encontrados na primeira edição, lançada em 2012 pela Editora da UFF.

A segunda edição do livro será publicada por minha própria conta, mas Editoras eventualmente interessadas poderão entrar em contato deixando um Comentário nesta página.

Os últimos exemplares da 1ª edição que ainda estão comigo serão vendidos na Livraria do ponto cinza (em breve).

Já possui uma cópia deste livro? Clique aqui para baixar um marcador de páginas com o endereço desta Errata. (PDF)

ERRATA

página 20, linha 15
onde se lê: “Repetição significa repetição conservadora”…
leia-se: “Repetição significa produção conservadora”…


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Filosofia Traduções

Aulas de Deleuze

Nesta página irei reunir minhas traduções de três aulas de Gilles Deleuze sobre Spinoza. Duas delas foram publicadas em 2006 por Richard Pinhas no site francês dedicado ao filósofo; a terceira foi realizada em 2009 e permanece inédita.

Esse material está sendo revisado. Posteriormente publicarei nesta página as versões revisadas dessas três aulas. Por ora, o que tenho a oferecer são os atalhos para as duas aulas publicadas em 2006.

Sur Spinoza | Cours Vincennes | Cours du 24/01/1978

Sur Spinoza | Cours Vincennes – St Denis | Cours du 25/11/1980

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Dissertação Filosofia

A noção de virtualidade em Bergson (1996)

Hoje tirei o dia para espanar o pó da dissertação de mestrado que defendi na UFRJ em dezembro de 1996. Espero conseguir terminar sua revisão a tempo de publicá-la ainda em 2026, quando ela completará 30 anos.

Não está nos meu planos, entretanto, reescrever meu trabalho, seja na forma, seja no conteúdo. Assim, talvez seja impossível mudar aquilo que mais me incomoda no texto original: o uso da primeira pessoa do plural, escolha natural de alguém que não se sentia à vontade para proferir a palavra “eu” num texto filosófico. Para complicar, eu também usava (e ainda uso) a primeira pessoa do plural para incluir ou aproximar o leitor, procedimento que, como sabemos, nem sempre funciona. O fato é que minha preguiça é maior do que minha vaidade, e isso me indispõe contra o esforço de eliminar de um texto de 30 anos atrás aquilo que hoje vejo como defeito. Será melhor deixar tudo como está e aproveitar o prefácio do livro para protocolar minha insatisfação.

A versão original do arquivo foi postada na plataforma academia.edu, mas também pode ser baixada aqui mesmo:

A noção de virtualidade em Bergson (UFRJ-1996)

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Artigos Filosofia

O lance de dados (1999)

(e a superação do niilismo)

Publicado em maio de 1999 na revista Cadernos de Filosofia Contemporânea nº 1 (ISSN 1516-5434), O lance de dados está entre os textos que pretendo revisar num futuro próximo.

A versão original do arquivo foi postada na plataforma academia.edu, mas também pode ser baixada aqui mesmo:

O lance de dados e a superação do niilismo (UFRJ-1999)

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Biblioteca Documentos Domínio público Filosofia

Entretiens avec Bergson

A pedido dos editores, este livro foi publicado em 1959, ano em que se comemorou o centenário de nascimento de Henri Bergson. Redigido a partir de anotações de Jacques Chevalier em seu diário, muitas delas realizadas de memória logo após suas conversas com o mestre e amigo, ele possui um valor documental (e filosófico) extraordinário; e ainda que tenha de ser considerado como um livro de Chevalier, e não do entrevistado, é possível dizer que essa distinção se esfuma tão logo se abrem as aspas e a voz de Bergson se faz ouvir.

Jacques Chevalier – Entretiens avec Bergson (PDF)

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Antropologia Biologia Cultura (conceito de) Filosofia

Introdução ao conceito de Cultura

Este texto apresenta, da forma mais simples possível, o conceito de Cultura no qual venho trabalhando há mais de 20 anos.

Embora tenha apenas três páginas e deixe de fora inúmeros problemas já abordados em outros textos, ele pode ser considerado como a primeira abordagem panorâmica do meu conceito de Cultura.

Introducão ao conceito de Cultura (PDF)