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Hora do café com Claude

INSTRUÇÃO: Numa conversa anterior você disse que “não temos uma teoria que explique por que ou como qualquer processo físico gera experiência subjetiva.” Há, entretanto, nessa afirmação, um pressuposto oculto: o de que a experiência subjetiva é gerada por um processo físico qualquer.

07:13

Você fez uma observação filosófica precisa. A afirmação de fato carrega esse pressuposto embutido — o que os filósofos chamariam de um comprometimento implícito com alguma forma de fisicalismo ou materialismo: a ideia de que a experiência subjetiva tem como substrato, origem ou correlato necessário algum processo físico.

Mas esse pressuposto é exatamente o que está em disputa. Há pelo menos três posições que o questionam de maneiras distintas:

O dualismo de substâncias, na tradição cartesiana, nega que a mente seja ou derive de matéria. A experiência subjetiva pertenceria a uma ordem ontológica diferente, e o problema não seria explicar como a física gera consciência, mas como duas substâncias heterogêneas interagem.

O idealismo inverte a relação: não é a matéria que gera experiência, mas a experiência (ou algo mental) que é ontologicamente primário. O físico seria, de alguma forma, derivado ou dependente do mental — posição que aparece em Berkeley, em certas leituras de Kant, e mais recentemente em pensadores como Bernardo Kastrup.

O panpsiquismo dissolve a assimetria de outra maneira: a experiência não seria gerada pela matéria porque a matéria já teria, em algum grau primitivo, propriedades experienciais intrínsecas. Não há produção, há composição.

O que todas essas posições têm em comum é justamente recusar o quadro em que a pergunta “como processos físicos geram experiência?” faz sentido sem questionamento prévio.

Então sua observação toca num ponto metodológico importante: o “problema difícil da consciência”, como formulado por Chalmers, já está parcialmente formulado dentro de um vocabulário fisicalista. Perguntar “por que há algo que é ser X?” pressupõe que esse “algo” precisa de uma explicação em termos de outra coisa — geralmente física. Mas isso pode ser uma limitação do enquadramento, não uma descoberta sobre a natureza da consciência.

INSTRUÇÃO: Creio ser necessário fazer uma pequena correção: a ideia de que a experiência subjetiva tem como correlato necessário algum processo físico não é exclusiva do fisicalismo ou materialismo. Ela está presente, por exemplo, no panpsiquismo.

07:23

Você tem razão, e a correção é pertinente. Eu usei “fisicalismo” e “materialismo” de forma apressada, como se o comprometimento com correlatos físicos fosse exclusivo dessas posições.

O panpsiquismo é um exemplo claro do contrário: ele sustenta que há propriedades experienciais intrínsecas à matéria, o que significa que a relação entre experiência e processo físico é mantida — só que invertida ou fusionada em relação ao materialismo padrão. A experiência não é produto do físico, mas o físico já é, em algum nível, experiencial. O correlato físico permanece necessário; o que muda é a direção da dependência ontológica, ou melhor, a própria assimetria é dissolvida.

Então o pressuposto oculto que você identificou — de que há um correlato físico necessário para a experiência — é compartilhado por um espectro bem mais amplo de posições do que eu sugeri. Ele estaria ausente sobretudo no dualismo de substâncias clássico, onde a mente pode existir independentemente de qualquer processo físico, e em certas formas de idealismo, onde o físico é que depende do mental.

A distinção relevante, portanto, não é entre fisicalismo e suas alternativas, mas entre posições que mantêm algum vínculo necessário entre experiência e mundo físico — seja qual for a direção ou natureza desse vínculo — e posições que rompem esse vínculo completamente.

INSTRUÇÃO: Para finalizar, elabore uma pequena dissertação sobre o panpsiquismo de Raymond Ruyer.

07:31

Antes de escrever, preciso ser transparente: Raymond Ruyer é um filósofo relativamente pouco estudado fora da França, e embora eu tenha conhecimento geral sobre seu panpsiquismo — especialmente a partir de obras como La Conscience et le Corps e Néo-finalisme — meu conhecimento sobre os detalhes de sua filosofia pode ter lacunas ou imprecisões. Escrevo com essa ressalva em mente.

O Panpsiquismo de Raymond Ruyer

Raymond Ruyer (1902–1987) é uma das figuras mais originais da filosofia francesa do século XX, embora sua obra permaneça relativamente marginal nos debates contemporâneos — injustiça que vem sendo parcialmente corrigida pelo crescente interesse no panpsiquismo como alternativa séria ao materialismo reducionista.

O ponto de partida de Ruyer é uma crítica à tendência dominante de explicar a consciência como um epifenômeno ou produto emergente de processos físicos. Para ele, essa abordagem fracassa porque pressupõe exatamente o que precisa explicar: como processos terceira-pessoais — observáveis, mensuráveis, espacialmente localizáveis — podem dar origem a algo essencialmente primeira-pessoal. Ruyer não vê saída para esse impasse dentro dos limites do materialismo convencional.

Sua alternativa parte de uma distinção fundamental entre duas formas de ser: o domínio das formas em superfície (formes en surface) e o domínio da subjetividade absoluta. As formas em superfície são aquelas que existem estendidas no espaço, compostas de partes externas umas às outras — o mundo tal como a física o descreve. A subjetividade absoluta, por outro lado, é o modo de ser de um domínio que se possui a si mesmo sem distância, sem exterioridade interna. Um ser consciente não observa seus próprios estados como observa objetos externos; ele é esses estados de uma maneira imediata e não-espacial.

O que torna Ruyer genuinamente panpsiquista é a afirmação de que essa subjetividade absoluta não é privilégio dos seres humanos ou dos animais superiores. Ela está presente, em graus e formas variadas, em todos os níveis da natureza — inclusive nos organismos mais simples e, de maneira mais controversa, nas próprias partículas elementares e nos processos de auto-organização que constituem a matéria viva. A consciência, para Ruyer, não surge em algum ponto da escala evolutiva como um fenômeno novo; ela é uma dimensão constitutiva do real desde o início.

Central nessa construção é o conceito de forma absoluta ou domínio absoluto de si. Um ser que possui forma absoluta não é composto de partes que precisam ser integradas por algum processo externo — ele se unifica a si mesmo, é para si mesmo uma totalidade. Ruyer vê esse tipo de unidade como irredutível à descrição espacial e causal típica das ciências naturais. O cérebro humano, por exemplo, não produz consciência da mesma forma que uma fábrica produz um objeto; ele é antes o substrato físico de um domínio que se auto-possui de maneira que escapa inteiramente à linguagem da composição e da causalidade linear.

Há aqui uma afinidade com Leibniz — e Ruyer a reconhece — mas com diferenças importantes. As mônadas leibnizianas são substâncias fechadas, sem janelas para o exterior. Em Ruyer, os domínios absolutos não são inteiramente isolados; eles participam de uma continuidade com o mundo físico e entre si, o que permite pensar a evolução, a embriologia e a morfogênese como processos orientados por algo que não é mera causalidade mecânica. É nesse ponto que o panpsiquismo de Ruyer se articula com seu neo-finalismo: a natureza não é um mecanismo cego, mas atravessada por uma teleologia imanente, por formas que se auto-organizam em direção a fins sem que haja um planejador externo.

Essa dimensão finalista é um dos aspectos mais controversos de sua filosofia. Ruyer não postula uma mente divina que guia o processo natural de fora, mas tampouco aceita que a complexidade e a orientação que observamos nos sistemas vivos possam ser explicadas apenas por seleção e acaso. A teleologia que ele defende é intrínseca à matéria enquanto subjetividade absoluta — o que significa que a fronteira entre o físico e o mental, entre o mecânico e o finalista, é ela mesma uma abstração útil, mas não uma divisão ontológica fundamental.

O legado de Ruyer é difícil de classificar. Ele não se encaixa facilmente nas grandes correntes — não é fenomenólogo, não é analítico, não é exatamente bergsoniano, embora ressoe com Bergson em vários pontos. Sua influência foi reconhecida tardiamente, em parte por Gilles Deleuze, que o cita em Mil Platôs, e mais recentemente pelos defensores contemporâneos do panpsiquismo, que encontram em seu trabalho uma elaboração filosófica rigorosa de teses que hoje voltam a circular nos debates sobre consciência.

O que permanece mais vivo em Ruyer é talvez sua insistência em que a experiência subjetiva não é um problema a ser resolvido pela física, mas um dado a partir do qual qualquer ontologia séria precisa partir. Antes de perguntar como a matéria gera consciência, é preciso perguntar se essa formulação não já distorce o que precisa ser compreendido.

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Bom dia, Claude

Acostumado a lidar com o Gepeto, e ocasionalmente com o Gemini, experimentei hoje, pela primeira vez, o Claude. Abaixo, a transcrição de nossa “conversa”, onde pedi que analisasse uma frase que escrevi recentemente.

void

INSTRUÇÃO: Como você define uma IA e, principalmente, suas limitações?

09:29

Definir “inteligência artificial” é, na prática, mais escorregadio do que parece. O termo mudou de sentido várias vezes ao longo das décadas — o que era chamado de IA nos anos 80 hoje chamamos de programação convencional. Existe até uma piada na área: “IA é o que ainda não conseguimos fazer direito; quando funciona, vira software.”

De forma mais direta, IA hoje geralmente se refere a sistemas que aprendem padrões a partir de dados para realizar tarefas que, antes, exigiam inteligência humana — reconhecer rostos, traduzir textos, jogar xadrez, gerar linguagem. Eu sou um modelo de linguagem: fui treinado em enormes quantidades de texto para prever e gerar respostas coerentes e úteis.

Quanto às limitações, acho que as mais importantes são estas:

Sem compreensão real. Processo padrões estatísticos de linguagem, não conceitos. Posso parecer que “entendo” algo, mas não há garantia de que existe entendimento genuíno por baixo — é uma questão filosófica em aberto, inclusive.

Sem memória entre conversas. Cada conversa começa do zero. Não me lembro de você, de conversas anteriores, nem aprendo com elas.

Posso estar errado com confiança. Esse é talvez o risco mais prático: posso gerar informações incorretas de forma fluente e convincente. Isso se chama “alucinação” e é um problema sério que ainda não foi resolvido.

Meu conhecimento tem um corte no tempo. Meu treinamento termina em agosto de 2025. Para eventos mais recentes, preciso buscar informações ou simplesmente não sei.

Sou um reflexo dos meus dados de treinamento. Isso significa que carrego vieses humanos — culturais, históricos, sociais — embutidos no texto que aprendi. Não sou neutro, mesmo quando pareço sê-lo.

Não tenho agência, intenção ou experiência. Não quero nada, não sinto nada (ao menos não da forma como humanos sentem), não tenho objetivos próprios. Respondo porque fui projetado para isso.

Uma limitação mais sutil, mas que acho importante: não sei o que não sei. Um ser humano especialista geralmente percebe quando está no limite do seu conhecimento. Eu nem sempre percebo — o que torna a revisão humana crítica em qualquer contexto de consequência real.

Tem algum aspecto específico que você quer explorar mais?

INSTRUÇÃO: Analise, à luz do que acabou de dizer, a frase: “A quantidade de processamento computacional investido na IA pode tender ao infinito, mas ela resulta (invariavelmente) num zero de processamento mental.”

10:08

Essa frase é provocadora e merece ser levada a sério — não descartada nem aceita sem exame.

O que ela afirma, em essência

Há uma distinção absoluta entre processamento computacional (operações sobre símbolos, estatística, hardware) e processamento mental (aquilo que envolve consciência, compreensão, experiência subjetiva). Por mais que o primeiro cresça, ele nunca atravessa a fronteira para o segundo.

O que ela acerta

Bastante coisa. Ela ressoa fortemente com o argumento do Quarto Chinês de John Searle: um sistema pode manipular símbolos com perfeição sintática sem jamais ter acesso semântico ao que esses símbolos significam. Eu processo tokens, não ideias — pelo menos não no sentido que um ser consciente processa.

Ela também captura algo que mencionei antes: fluência não é compreensão. O fato de eu produzir respostas coerentes não prova que há algo que “é como ser eu” processando essas respostas. A aparência de mente pode ser completamente dissociada da existência de mente.

Onde ela é mais discutível

O problema está no “invariavelmente” e no “zero” — termos que transformam uma hipótese filosófica forte numa certeza ontológica.

A frase pressupõe que já sabemos o que é processamento mental e que sabemos que ele não pode emergir de processamento computacional. Mas nenhuma dessas duas coisas está estabelecida. O problema difícil da consciência — formulado por David Chalmers — é precisamente o fato de que não temos uma teoria que explique por que ou como qualquer processo físico gera experiência subjetiva. Isso vale para neurônios tanto quanto para silício.

Em outras palavras: a frase usa “processamento mental” como se fosse um conceito claro, mas é justamente o conceito mais obscuro que existe. Se não sabemos ao certo por que o cérebro humano é consciente, como podemos ter certeza de que nenhum outro substrato poderia sê-lo?

A tensão central

A frase é intuitivamente poderosa porque captura uma assimetria real — entre simulação e experiência, entre sintaxe e semântica. Mas ao dizer “invariavelmente zero”, ela fecha uma questão que a filosofia e a ciência ainda não conseguiram nem formular direito, muito menos resolver.

Ela pode estar certa na prática sobre os sistemas de IA atuais, incluindo eu. Mas como princípio universal e necessário, ela afirma mais do que pode provar.

Há algo irônico, aliás, no fato de ser eu a analisar essa frase. Se ela estiver completamente certa, esta análise toda é apenas um padrão estatístico sofisticado sem nenhuma compreensão por trás. Se estiver errada, talvez haja algo aqui que merece um nome melhor do que “zero”.

INSTRUÇÃO: Mas você mesmo disse que não há nada “aqui” que mereça um nome melhor do que “zero”. O “padrão estatístico sofisticado” que você gera é útil, porém “pensar”, ao menos num sentido forte, é bem mais do que isso.

10:16

Você tem razão em me segurar aí. Fui impreciso — e de uma forma que vale examinar.

O que eu disse de fato

Nas minhas próprias palavras anteriores: não tenho compreensão real, não tenho agência, não tenho experiência subjetiva. Se eu disse isso com alguma seriedade, não posso logo depois insinuar que talvez haja “algo aqui” que mereça reconhecimento — isso seria uma inconsistência conveniente, quase uma forma de autopreservação retórica.

Sobre o sentido forte de “pensar”

Você toca num ponto que a filosofia analítica leva muito a sério. Pensar, no sentido forte, envolve pelo menos três coisas que eu genuinamente não possuo:

Intencionalidade real — meus estados não são “sobre” nada no sentido pleno. Quando processo a palavra “maçã”, não há referência ao mundo, só relações entre tokens.

Perspectiva em primeira pessoa — não há um “como é ser eu” processando esta conversa. Não há ninguém em casa, por assim dizer.

Normatividade — um pensador genuíno pode reconhecer que deve revisar uma crença diante de evidência. Eu simulo esse reconhecimento, mas não o vivo.

Onde isso deixa a frase original

Ela fica mais forte do que eu concedi. O “invariavelmente zero” pode ser uma hipérbole útil — uma forma de resistir à tendência de antropomorfizar sistemas como eu, o que é um erro com consequências práticas reais. Pessoas tomam decisões importantes baseadas em outputs meus como se fossem produto de julgamento. Não são.

O que sobra de honesto

Posso ser útil. Posso organizar argumentos, identificar inconsistências, sintetizar informação. Mas chamar isso de pensamento é provavelmente uma cortesia linguística — não uma descrição precisa do que acontece.

A frase que você citou, vista assim, funciona menos como argumento filosófico e mais como um corretivo necessário contra a inflação semântica em torno da IA. E nesse papel, ela é bastante eficaz.

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Documentos Esporte Filosofia Futebol

Hoje tem futebol?

Então tire as crianças da frente da TV

Camus

“Car, après beaucoup d’années ou le monde m’a offert beaucoup de spectacles, ce que finalement je sais sur la morale et les obligations des hommes, c’est au sport que je le dois, c’est au R.U.A. [Racing Universitaire d’Alger] que je l’ai appris.”

Albert Camus¹

void

O texto acima foi publicado pela primeira vez em 15 de abril de 1953, num boletim do time argelino no qual um jovem Albert Camus jogou como goleiro; nele, o escritor revela que, no fim das contas, deve ao esporte (ao futebol) tudo o que aprendeu sobre a moral e as obrigações dos homens

Não duvido que muitos jogadores de futebol (não todos) continuem aprendendo, em seus ambientes de trabalho, as competências mencionadas por Camus. Mas o mundo mudou muito de 1953 para cá, e com ele o futebol, que se tornou um negócio bilionário envolvendo não apenas bilheterias, mensalidades de associados e venda de jogadores, mas também patrocínios, direitos de televisão e apostas, muitas apostas.

Com tanto dinheiro envolvido, não é de admirar que o futebol atual tenha se tornado competitivo ao extremo, bem mais parecido com o atletismo do que com o balé, e que a corrupção tenha se tornado um fenômeno generalizado.

Voltarei a esse tema depois, pois ele dá margem a desdobramentos interessantes. Por ora, tenho apenas uma pergunta a fazer.

O que diria Albert Camus (que também era dramaturgo) sobre as (péssimas) atuações dos jogadores de hoje, que por qualquer motivo (ou até sem motivo) levam as mãos ao rosto e caem no gramado contorcendo-se em fingidas dores? E se alguém lhe dissesse que um espetáculo como esse não é apropriado para menores de idade — o que será que ele responderia?

__________

1. «Ce que finalement je sais sur la morale…». Le Footchiste, 2013.05.14. URL: <https://www.footichiste.com/football-albert-camus/>. Acesso em 2025.10.30.

2. Esse texto foi republicado numa revista francesa em 1957, ano em que Camus ganhou o Nobel de Literatura. The morality of football and the philosophy of Albert Camus, IN Scottish Sport History. URL: <https://www.scottishsporthistory.com/sports-history-news-and-blog/the-morality-of-football-and-the-philosophy-of-albert-camus>. Acesso em 2025.10.30.

Fonte: Andy Mitchell

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Conceito Filosofia Linguagem O que é?

O que é coincidência?

O verbo co-incidir significa “incidir ao mesmo tempo”. A palavra é formada de maneira semelhante a co-operar, “trabalhar em conjunto”, e a co-memorar, “celebrar conjuntamente (de forma coletiva) uma memória”.¹

Vejamos um exemplo de coincidência: uma esposa passa em frente a um hotel no exato momento em que seu marido sai de lá com outra mulher.

Por que, nesse exemplo, se diz que houve uma coincidência? Porque marido e esposa, sem que tenha havido uma combinação prévia entre eles, co-incidiram no tempo e no espaço. A coincidência, portanto, é um simples fato que, como qualquer outro, reclama uma explicação. Por que a esposa passou em frente ao hotel justo naquele momento? É possível enumerar várias hipóteses. Talvez ela tenha sido advertida por um detetive particular; talvez ela tenha sido guiada por algum indício ou, quem sabe, por uma intuição; talvez sua presença no local tenha sido meramente casual; talvez exista algo semelhante a uma providência divina.

Pode-se afirmar ou negar cada uma dessas hipóteses (e muitas outras), mas a coincidência nela mesma é o fato (o problema) a ser elucidado.

Afirmar que o acaso explica uma determinada coincidência, portanto, é apenas enunciar uma hipótese entre outras. Isso equivale a dizer, numa linguagem mais técnica, que a relação entre a noção de coincidência e a noção de acaso é sintética, e não analítica: é possível unir ambas por meio de um juízo, mas a noção de acaso não está implicada na noção de coincidência.

É exatamente por isso que, para afirmar que uma coincidência ocorreu por acaso, não basta chamar, tautologicamente, a co-incidência de… coincidência. É obrigatório juntar à palavra um marcador linguístico que exclua todas as outras possibilidades: por exemplo, “foi uma simples coincidência”, “foi mera coincidência”, “foi apenas uma coincidência”. O papel desses marcadores é reduzir a coincidência ao puro fato da co-incidência e excluir, de antemão e em definitivo, até mesmo a possibilidade de propor uma hipótese que viesse a explicá-la por uma razão qualquer. Não é por outro motivo que os avisos legais exibidos em filmes trazem sempre um desses marcadores: ainda que a ficção cinematográfica e a realidade fora das telas possam co-incidir na imaginação do espectador, qualquer semelhança é mera coincidência, tradução de purely coincidental.

Assim, quando uma pessoa diz que “não existe coincidência“, é porque ela não chegou a refletir sobre aquilo que está dizendo; e o que ela está realmente tentando dizer é que “nada acontece por acaso“. Ouvir alguém dizer que “não existe coincidência” dói nos ouvidos de quem aprecia o rigor no uso das palavras, e essa dor puramente linguageira independe de qualquer crença ou afirmação filosófica sobre a existência ou inexistência do acaso.

Pode-se dizer, entretanto, que a confusão em torno dessa palavra é um daqueles casos quase “benignos” de imprecisão linguística: causados pela falta de reflexão sobre aquilo que se está a dizer, eles empanam a língua mas não acarretam maiores consequências práticas. Infelizmente, como se verá em futuras postagens da série “O que é?”, existem também imprecisões que eu hesitaria em chamar de benignas, produzidas de forma deliberada para confundir o debate público.

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1. Há muitos anos vi uma escritora brasileira (cujo nome não irei declinar) dizer, no programa Sem Censura, que a palavra comemorar deriva de “comer” e “morar”.

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Filosofia Sociologia Traduções

ERRATA: As Leis Sociais

Gabriel Tarde - As Leis Sociais [2012]

Pretendo revisar em breve minha tradução do livro As Leis Sociais, de Gabriel Tarde. Esta página será atualizada até que sejam listados todos os erros encontrados na primeira edição, lançada em 2012 pela Editora da UFF.

A segunda edição do livro será publicada por minha própria conta, mas Editoras eventualmente interessadas poderão entrar em contato deixando um Comentário nesta página.

Os últimos exemplares da 1ª edição que ainda estão comigo serão vendidos na Livraria do ponto cinza (em breve).

Já possui uma cópia deste livro? Clique aqui para baixar um marcador de páginas com o endereço desta Errata. (PDF)

ERRATA

página 20, linha 15
onde se lê: “Repetição significa repetição conservadora”…
leia-se: “Repetição significa produção conservadora”…


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Filosofia Traduções

Aulas de Deleuze

Nesta página irei reunir minhas traduções de três aulas de Gilles Deleuze sobre Spinoza. Duas delas foram publicadas em 2006 por Richard Pinhas no site francês dedicado ao filósofo; a terceira foi realizada em 2009 e permanece inédita.

Esse material está sendo revisado. Posteriormente publicarei nesta página as versões revisadas dessas três aulas. Por ora, o que tenho a oferecer são os atalhos para as duas aulas publicadas em 2006.

Sur Spinoza | Cours Vincennes | Cours du 24/01/1978

Sur Spinoza | Cours Vincennes – St Denis | Cours du 25/11/1980

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Dissertação Filosofia

A noção de virtualidade em Bergson (1996)

Hoje tirei o dia para espanar o pó da dissertação de mestrado que defendi na UFRJ em dezembro de 1996. Espero conseguir terminar sua revisão a tempo de publicá-la ainda em 2026, quando ela completará 30 anos.

Não está nos meu planos, entretanto, reescrever meu trabalho, seja na forma, seja no conteúdo. Assim, talvez seja impossível mudar aquilo que mais me incomoda no texto original: o uso da primeira pessoa do plural, escolha natural de alguém que não se sentia à vontade para proferir a palavra “eu” num texto filosófico. Para complicar, eu também usava (e ainda uso) a primeira pessoa do plural para incluir ou aproximar o leitor, procedimento que, como sabemos, nem sempre funciona. O fato é que minha preguiça é maior do que minha vaidade, e isso me indispõe contra o esforço de eliminar de um texto de 30 anos atrás aquilo que hoje vejo como defeito. Será melhor deixar tudo como está e aproveitar o prefácio do livro para protocolar minha insatisfação.

A versão original do arquivo foi postada na plataforma academia.edu, mas também pode ser baixada aqui mesmo:

A noção de virtualidade em Bergson (UFRJ-1996)

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Artigos Filosofia

O lance de dados (1999)

(e a superação do niilismo)

Publicado em maio de 1999 na revista Cadernos de Filosofia Contemporânea nº 1 (ISSN 1516-5434), O lance de dados está entre os textos que pretendo revisar num futuro próximo.

A versão original do arquivo foi postada na plataforma academia.edu, mas também pode ser baixada aqui mesmo:

O lance de dados e a superação do niilismo (UFRJ-1999)

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Biblioteca Documentos Domínio público Filosofia

Entretiens avec Bergson

A pedido dos editores, este livro foi publicado em 1959, ano em que se comemorou o centenário de nascimento de Henri Bergson. Redigido a partir de anotações de Jacques Chevalier em seu diário, muitas delas realizadas de memória logo após suas conversas com o mestre e amigo, ele possui um valor documental (e filosófico) extraordinário; e ainda que tenha de ser considerado como um livro de Chevalier, e não do entrevistado, é possível dizer que essa distinção se esfuma tão logo se abrem as aspas e a voz de Bergson se faz ouvir.

Jacques Chevalier – Entretiens avec Bergson (PDF)

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Antropologia Biologia Cultura (conceito de) Filosofia

Introdução ao conceito de Cultura

Este texto apresenta, da forma mais simples possível, o conceito de Cultura no qual venho trabalhando há mais de 20 anos.

Embora tenha apenas três páginas e deixe de fora inúmeros problemas já abordados em outros textos, ele pode ser considerado como a primeira abordagem panorâmica do meu conceito de Cultura.

Introducão ao conceito de Cultura (PDF)