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Erro atrás de erro

erro atrás de erro
O Globo, 27 de janeiro de 2026

O corpo da notícia está bem escrito, e isso indica que os três erros acima não foram cometidos pelo jornalista, cujo nome omiti, mas (provavelmente) pelo estagiário a quem coube escrever o título e a linha fina (subtítulo).

O primeiro deles está no próprio título. Bastidor, entre outras coisas, é um caixilho de madeira usado para prender o tecido que será bordado ou pintado. A palavra teria de ser bastidores; o plural, nesse caso, não é opcional.

O segundo erro, ainda mais primário, consiste no uso da crase (e, portanto, do artigo feminino) antes de palavra masculina. Bastava a preposição: veio a público.

Por fim, em vez de “apoia o colega seguir atuando”, deveria estar escrito “apoia o colega a seguir atuando”. Lá sobrou um artigo, aqui faltou a preposição.

Eu poderia, se quisesse, obter uma renda extra apenas apontando, num canal do YouTube, os erros de Português cometidos na grande imprensa; e olhem que eu nem mesmo sou um especialista no assunto. Não pretendo voltar a escrever sobre isso, mas faço questão de deixar registrada aqui minha indignação: sendo os jornais em questão veículos de comunicação de grande alcance, é um escândalo que eles ensinem seus leitores a desaprender o Português.

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Criação Inteligência artificial Linguagem

Autoria e Inteligência Artificial

Entre as confusões geradas pela popularização dos LLMs (Large Language Models) está aquela envolvendo o conceito de autoria. Há quem tema, por exemplo, pela consumação efetiva da tão anunciada “morte do autor”.

Na base desse temor está a suposição de que a Inteligência Artificial (IA) seja capaz de criar, ou seja, de gerar algo de original. Mas essa suposição é equivocada e a IA não pode ser definida como autora de coisa alguma. Seus textos são colagens ou pastiches, recombinação de padrões linguísticos previamente existentes a partir de cálculos probabilísticos.

O truque, aqui, é compreender que, ainda que a IA não seja capaz de criar, nem por isso a autoria daquilo que a IA produz desapareceu: ela apenas tornou-se infinitamente difícil de ser rastreada.

Mas isso não é nenhuma novidade. Quantas palavras ou receitas culinárias podem realmente ser atribuídas aos seus legítimos autores, e quantas são usadas até hoje sem que tenhamos a menor idéia de quem foram seus inventores?

Ao menos num certo sentido, o cenário que está a ser inaugurado pela IA é altamente favorável ao autêntico criador. Agora que a mediocridade plagiadora está ao alcance de todos, a criação, única atividade realmente redentora, tende a sobressair.

Para concluir esta postagem de forma irônica, apresentarei a seguir dois sonetos produzidos pelo ChatGPT a partir de nossa conversa sobre esse tema. Seus títulos, no entanto, foram escritos por mim, e também um único verso. Não é um bom verso, mas… é meu. Você seria capaz de apontá-lo?

void

Sem eu, robô

Não cria do nada, mas rearranja
O vasto arquivo humano em linguagem;
Sem musa, engenho ou íntima mensagem,
Tecidos velhos numa forma estranha.

Não sabe o peso ético que acompanha
A frase exata, a falha, a ambiguidade;
Calcula o passo, ignora a gravidade
Do que diz, do que oculta, do que ganha.

É pastiche sem riso, é voz sem dono,
Remix sem gesto, estilo sem história,
Um texto que nasceu sem testemunho.

E ainda assim produz, na transitória
Leitura humana, um sentido autônomo:
Não há autor — mas há memória.

void

A origem da informação

Não prova o cálculo, ao bem escrever,
Que o gênio seja um mito consumado;
Mostra apenas que o texto articulado
Dispensa a chama íntima do ser.

Mas pode haver criação que faz nascer
O novo onde o arquivo é ultrapassado,
Um gesto inaugural, não derivado,
Que o sistema não pode prever.

Há texto sem sujeito, eis a lição;
Mas não se infere, daí, por simetria,
Que toda origem seja ilusão.

O gênio, então, não morre: se retira
Para o lugar do que escapa à razão,
alerta e ligeiro como o Curupira.

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Direito Escândalos Imprensa Jornalismo Linguagem

twist like hell

likehell
Trecho de reportagem reproduzido a título de citação (fair use). Abra a imagem em outra aba caso queira ampliá-la.

Antes de concluir esta série de postagens sobre a BBC, farei um rápido adendo acerca do benefício da dúvida, que é um conceito fundamental do Direito e um dos pilares mais importantes da vida em sociedade.

Quem possui ao menos um conhecimento intermediário da língua inglesa sabe que é impossível traduzir a locução “fight like hell” por “lutar como demônios”.

Leitores de má vontade poderão argumentar que esse erro foi cometido pelo jornal O GLOBO de propósito, para (1) provocar a imediata repulsa de uma grande parcela do público religioso e (2) passar a impressão de que Trump teria feito, de fato, um apelo direto à violência em seu discurso.

É nessas horas, contudo, que o historiador (ou jurista, ou mesmo jornalista) mostra que seu trabalho pouco tem a ver com a gritaria da imprensa e das redes sociais. O jornal O Globo, ao menos em seu noticiário (não me refiro aos seus colunistas), é célebre pelos constantes erros de Português. Assim, não deveria nos espantar que o jornal também possa cometer erros ao traduzir línguas estrangeiras.

Houve, sem dúvida, um erro, e um erro cômico de tão primário; e é claro que o jornal deve ser criticado pelos efeitos de sentido que esse erro introduziu, com tanto destaque, no texto. Mas não podemos afirmar categoricamente que houve má-fé, pois pode ter sido um simples caso de ignorância. Ainda que seja possível imaginar que o erro foi intencional, somos obrigados, nesse caso, a conceder o benefício da dúvida.

Totalmente diferente é a situação da BBC no escândalo em que está envolvida, e é por isso que ele é tão relevante para qualquer sociedade que se pretenda democrática. Voltarei a esse tema na próxima postagem.

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Dicionários Documentos Domínio público Linguagem

Diccionario da lingua portugueza

vulgo ‘Moraes’

Moraes
Diccionario da lingua portugueza (1789)

O Dicionário Moraes (ou Morais) dispensa apresentações, mas para aqueles que não conhecem seu autor, Antonio de Moraes Silva (ou Antônio de Morais Silva, ou ainda António de Morais Silva), deixo aqui o atalho para este ótimo artigo.

Eu tenho e consulto há muitos anos uma cópia física da edição comemorativa de 1922 na qual publicou-se o fac-símile da 2ª edição do dicionário, de 1813.

Os atalhos abaixo dão acesso às três primeiras edições da obra. Há também um atalho para a sétima edição, publicada em 1877-1878. A 3ª edição, de 1823, foi a última publicada pelo próprio Moraes.

1ª edição (1789)

2ª edição (1813) 1º volume | 2º volume

3ª edição (1823)

7ª edição (1877-78)

Para quem quiser divertir-se além da conta, aqui estão os 10 volumes da obra enciclopédica de Raphael Bluteau (1638-1734) que Moraes usou como fonte para a elaboração de seu dicionário: Vocabulário Português e Latino.

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Conceito Filosofia Linguagem O que é?

O que é coincidência?

O verbo co-incidir significa “incidir ao mesmo tempo”. A palavra é formada de maneira semelhante a co-operar, “trabalhar em conjunto”, e a co-memorar, “celebrar conjuntamente (de forma coletiva) uma memória”.¹

Vejamos um exemplo de coincidência: uma esposa passa em frente a um hotel no exato momento em que seu marido sai de lá com outra mulher.

Por que, nesse exemplo, se diz que houve uma coincidência? Porque marido e esposa, sem que tenha havido uma combinação prévia entre eles, co-incidiram no tempo e no espaço. A coincidência, portanto, é um simples fato que, como qualquer outro, reclama uma explicação. Por que a esposa passou em frente ao hotel justo naquele momento? É possível enumerar várias hipóteses. Talvez ela tenha sido advertida por um detetive particular; talvez ela tenha sido guiada por algum indício ou, quem sabe, por uma intuição; talvez sua presença no local tenha sido meramente casual; talvez exista algo semelhante a uma providência divina.

Pode-se afirmar ou negar cada uma dessas hipóteses (e muitas outras), mas a coincidência nela mesma é o fato (o problema) a ser elucidado.

Afirmar que o acaso explica uma determinada coincidência, portanto, é apenas enunciar uma hipótese entre outras. Isso equivale a dizer, numa linguagem mais técnica, que a relação entre a noção de coincidência e a noção de acaso é sintética, e não analítica: é possível unir ambas por meio de um juízo, mas a noção de acaso não está implicada na noção de coincidência.

É exatamente por isso que, para afirmar que uma coincidência ocorreu por acaso, não basta chamar, tautologicamente, a co-incidência de… coincidência. É obrigatório juntar à palavra um marcador linguístico que exclua todas as outras possibilidades: por exemplo, “foi uma simples coincidência”, “foi mera coincidência”, “foi apenas uma coincidência”. O papel desses marcadores é reduzir a coincidência ao puro fato da co-incidência e excluir, de antemão e em definitivo, até mesmo a possibilidade de propor uma hipótese que viesse a explicá-la por uma razão qualquer. Não é por outro motivo que os avisos legais exibidos em filmes trazem sempre um desses marcadores: ainda que a ficção cinematográfica e a realidade fora das telas possam co-incidir na imaginação do espectador, qualquer semelhança é mera coincidência, tradução de purely coincidental.

Assim, quando uma pessoa diz que “não existe coincidência“, é porque ela não chegou a refletir sobre aquilo que está dizendo; e o que ela está realmente tentando dizer é que “nada acontece por acaso“. Ouvir alguém dizer que “não existe coincidência” dói nos ouvidos de quem aprecia o rigor no uso das palavras, e essa dor puramente linguageira independe de qualquer crença ou afirmação filosófica sobre a existência ou inexistência do acaso.

Pode-se dizer, entretanto, que a confusão em torno dessa palavra é um daqueles casos quase “benignos” de imprecisão linguística: causados pela falta de reflexão sobre aquilo que se está a dizer, eles empanam a língua mas não acarretam maiores consequências práticas. Infelizmente, como se verá em futuras postagens da série “O que é?”, existem também imprecisões que eu hesitaria em chamar de benignas, produzidas de forma deliberada para confundir o debate público.

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1. Há muitos anos vi uma escritora brasileira (cujo nome não irei declinar) dizer, no programa Sem Censura, que a palavra comemorar deriva de “comer” e “morar”.