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Quando o elogio da IA generativa conduz ao anti-intelectualismo

Em fevereiro de 2026 teve início uma controvérsia sobre uma colunista do jornal Folha de São Paulo que usa IA generativa para produzir seus artigos. Escrevi este texto para publicação naquele jornal e estive a um clique de enviá-lo, porém desisti ao ler os abusivos “termos para envio”, que me impediriam de republicá-lo onde bem entendesse. Menciono esse contexto porque ele explica a concisão e o caráter ao mesmo tempo polêmico e didático deste texto, no qual esforço-me para equacionar o problema diante de um público amplo e diverso. Equivocam-se apologistas e detratores do uso de IA generativa: estes não compreendem que também a produção textual é produção de mercadoria; aqueles manifestam uma concepção rudimentar (e nociva) do trabalho intelectual.

A IA é uma ferramenta de pesquisa extraordinária. Eu a uso sempre que quero testar uma hipótese ou buscar uma informação específica cuja obtenção demandaria uma longa e tediosa pesquisa. Também a uso quando quero confirmar aquilo que já sei (ou penso saber), mais ou menos como quem consulta o dicionário para verificar a regência ou as nuanças de sentido de uma palavra. Sempre atento, porém, pois assim como é temerário confiar nas etimologias gregas de um Aurélio, é impossível confiar plenamente na IA; afinal, ela é leitora contumaz da Wikipédia e não possui um nariz que nos alerte de suas alucinações.

Tudo muda de figura, entretanto, e deixa de ser pacífico, quando a IA é usada para a produção de textos. Para alguns críticos dessa prática, quem recorre à IA não seria muito diferente do aluno que faz seu trabalho de casa copiando o texto de uma enciclopédia e mudando algumas palavras para disfarçar o plágio; afinal, a IA só “pensa” (recombina, reorganiza) e “escreve” porque foi treinada previamente por meio de uma infinidade de textos humanos.

A crítica é injusta porque a analogia é fraca. Não podemos acusar o usuário de trapacear, especialmente se ele é franco e admite o uso da IA para obter seu texto. Além disso, se é esta que produz, é ele quem dirige o processo ao engendrar os comandos; e se a IA reproduz padrões ao “escrever”, não é de maneira mecânica e servil como no plágio, mas porque foi treinada com um número incompreensível de fontes cuja autoria não desapareceu por encanto, mas é geralmente muito difícil de ser rastreada.

Também há quem chame tais textos de “ultraprocessados da mente”. A analogia é chamativa, porém imperfeita, pois confunde processamento computacional e mental. A quantidade de processamento computacional investido na IA pode tender ao infinito, mas ela resulta (invariavelmente) num zero de processamento mental. O paralelo não funciona: o processamento excessivo empobrece e envenena os alimentos, mas costuma tornar os produtos do trabalho intelectual genuíno, esse mesmo que a IA é incapaz de fazer, mais rigorosos e sofisticados. A analogia também falha quando focamos nos efeitos do texto em vez de focar em seu processo de produção. Não é porque foi gerado por IA que um texto fará ao meu psiquismo o mal que o ultraprocessado faz ao meu corpo. Tal como o aluno que comete plágio, quem usa IA para gerar seus textos prejudica, a rigor, apenas a si mesmo. Desse ponto de vista, o uso infantil da IA generativa constitui, de fato, um problema dos mais sérios, sobretudo num cenário em que a produção humana de alimentos psíquicos deletérios (minimamente processados) é descomunal e não para de crescer.

O que os críticos do uso generativo da IA ainda não entenderam é que profissionais da palavra não têm a obrigação de serem escritores, e muito menos pensadores. Não se pode exigir que escrevam com seu sangue ou, no mínimo, com seu suor. A linguagem escrita nasceu como instrumento de registro contábil e, como atestam os milhões de placas afixadas nas imediações dos elevadores brasileiros, nem todas as publicações de ampla tiragem e difusão são obra de escritores. Não riam se um jornalista disser que o uso de IA na escrita é a “evolução do ofício”: ele está apenas sendo honesto. Desde que exista transparência a respeito desse uso, e que seus patrões o aprovem, cabe aos profissionais da palavra decidir se usarão robôs para obter ou melhorar seus textos; e se o artigo (a mercadoria) satisfaz os avisados leitores, o que há, objetivamente, é uma relação de consumo regulada por um contrato livremente estabelecido entre adultos. De resto, do mesmo modo que não me passa pela cabeça reivindicar o título de artista gráfico apenas porque obtive uma ilustração por meio de IA generativa, tampouco poderão esses profissionais apresentar-se como escritores. É um preço módico a pagar por um bem obtido sem esforço.

Tais equívocos não são nada, entretanto, se comparados ao erro cometido pelos apologistas do uso de IA generativa, que é insidioso. Ao chamar de “manual” o processo de elaboração que conduz da ideia ao texto final, eles desejam convencer-nos de que ele é tão completamente secundário que pode ser delegado a um robô; o que verdadeiramente importa é a ideia. É fácil reconhecer, nesse movimento de exaltação da causa formal e de depreciação da causa eficiente, o desprezo pelo trabalho manual que vigorou na antiga Grécia escravista e permanece vivo até hoje.

Só que a elaboração de um texto é um esforço intelectual, e não manual. Assim como a tarefa do maestro não é “manejar a batuta” e a do cirurgião não é “manejar o bisturi”, a tarefa do escritor não é dar com os dedos num teclado. Não faz sentido chamar de “manuais” essas atividades, ainda que todas impliquem o uso das mãos. Portanto, embora não o saibam, é ao esforço intelectual que os apologistas da IA generativa dirigem seu desdém.

Pensar, esforçar-se intelectualmente, é equacionar problemas. Não basta “ter” ou “contemplar” uma ideia, é preciso desenvolvê-la; não basta “levantar” um problema, é preciso estabelecê-lo ou equacioná-lo de forma correta e propor uma solução, ainda que provisória (como são, na maior parte das vezes, as soluções). O esforço intelectual se manifesta durante o processo que conduz da posição de um problema à sua resolução. É assim que o médico chega ao seu diagnóstico, o filósofo elabora seu conceito, o cientista testa sua hipótese e o romancista tece sua trama; é assim que o devido processo legal, baseado numa investigação criteriosa, substitui o boato e o linchamento. Não custa lembrar que também há esforço intelectual no trabalho “manual” daqueles que produzem bens essenciais como casas, móveis e refeições. Se você tem alguma dúvida, experimente saborear um prato preparado por alguém que simplesmente “seguiu uma receita”.

Para mim, abdicar da elaboração do texto, a um tempo seguindo e inventando as sinuosidades dos caminhos pelos quais um problema se desenvolve, e torna-se diferente de si mesmo ao desenvolver-se, seria renunciar àquilo que mais gosto de fazer na vida: aprender a pensar e escrever ao pensar e escrever. Não tenho, no entanto, a pretensão de ser a régua de outrem. Profissionais da palavra têm o direito de facilitar seu trabalho recorrendo a robôs para produzir e/ou polir seus artigos; eles só não têm o direito de desfigurar e depreciar o esforço implicado no trabalho intelectual autêntico, que tanta falta nos faz, apenas para defender seu ganha-pão.

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Um comentário a “Quando o elogio da IA generativa conduz ao anti-intelectualismo”

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