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Diccionario da lingua portugueza

vulgo ‘Moraes’

Moraes
Diccionario da lingua portugueza (1789)

O Dicionário Moraes (ou Morais) dispensa apresentações, mas para aqueles que não conhecem seu autor, Antonio de Moraes Silva (ou Antônio de Morais Silva, ou ainda António de Morais Silva), deixo aqui o atalho para este ótimo artigo.

Eu tenho e consulto há muitos anos uma cópia física da edição comemorativa de 1922 na qual publicou-se o fac-símile da 2ª edição do dicionário, de 1813.

Os atalhos abaixo dão acesso às três primeiras edições da obra. Há também um atalho para a sétima edição, publicada em 1877-1878. A 3ª edição, de 1823, foi a última publicada pelo próprio Moraes.

1ª edição (1789)

2ª edição (1813) 1º volume | 2º volume

3ª edição (1823)

7ª edição (1877-78)

Para quem quiser divertir-se além da conta, aqui estão os 10 volumes da obra enciclopédica de Raphael Bluteau (1638-1734) que Moraes usou como fonte para a elaboração de seu dicionário: Vocabulário Português e Latino.

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Corrupção Esporte Futebol

Novas regras para o futebol

A ficha caiu quando meu time estava jogando uma partida muito importante e eu estava mais interessado em configurar o Linux Mint que deu vida nova a um PC velho. Uma vez que não chego a ser alucinado por informática, esse fato indica que, para mim, assistir a um jogo de futebol tornou-se um programa muitas vezes chato e quase sempre tóxico.

Chato: é claro que as belas jogadas e os belos gols, razões de ser do esporte, ainda acontecem. No entanto, por causa da pressão contínua sobre o adversário que caracteriza o futebol moderno, a bola está em disputa (ou está sendo atrasada na direção da defesa) durante a maior parte do tempo. Ninguém está pedindo que uma partida de futebol se assemelhe ao jogo dos filósofos do Monty Python, mas também não precisava ser a correria interminável de um vulgar filme de ação.

Tóxico: Reis já não mandam anular gols, como aconteceu na Copa Mohammed V de 1968; mais discretos, porém não menos manipuladores, os cartolas de hoje simplesmente compram os resultados. As péssimas arbitragens, que são a regra ao invés de serem a exceção, e a falta de uniformidade na aplicação das normas do jogo, ajudam a tornar enfadonho o espetáculo.

Tudo isso me levou e me levará cada vez mais para longe do futebol. Não consigo enxergar uma solução para aquilo que, nele, se tornou chato, mas seu caráter tóxico poderia ser amenizado com apenas alguns ajustes. Assim, embora eu duvide muito que um sistema corrupto seja capaz de mudar as regras que facilitam sua própria corrupção, resolvi perder um bocadinho de meu tempo propondo algumas mudanças nas regras do esporte.

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1. Quando a bola estiver fora de disputa, o cronômetro será parado. Assim que o jogo recomeçar, o cronômetro voltará a marcar o tempo. É o fim da cera. O time que quiser fazer o tempo passar terá de fazê-lo com a bola nos pés. Seriam dois tempos de 25 ou 30 minutos cada, porém de jogo jogado. Fim dos “acréscimos”, tantas vezes usados para favorecer um dos times.

2. Quando a bola estiver nas mãos do goleiro, ela será considerada fora de disputa (como já acontece na regra atual) e o cronômetro será parado. É o fim da cera dos goleiros, que poderão, por outro lado, decidir sem afobamento como irão recomeçar o jogo. O juiz, por sua vez, não terá de ficar contando 8 segundos como uma criança a brincar de esconde-esconde.

3. O VAR terá de comunicar-se com o árbitro sempre que este trocar um escanteio por um tiro de meta (e vice-versa). Inversões potencialmente decisivas (como essa) não podem ficar ao sabor de decisões equivocadas e devem ser revistas em tempo real. Uma vez que a cooperação entre árbitros de campo e de vídeo se tornar corriqueira, outros erros claros, inclusive disciplinares, poderão ser prontamente corrigidos pelo VAR.

4. Introdução do Desafio ao VAR. Cada técnico terá direito a pedir um “desafio” (uma consulta ao VAR) por cada tempo de jogo. Caso obtenha uma decisão favorável em seu pedido, o técnico continuará tendo direito a um desafio naquele tempo de jogo. Sem essa regra simples, o VAR acaba tornando-se apenas um instrumento extra para a manipulação dos resultados.

5. Também o árbitro da partida terá direito a propor Desafios ao VAR. Os árbitros são forçados a tomar decisões mesmo quando estão distantes do lance ou têm sua visão encoberta. Pedir ajuda não é vergonha; vergonha é tomar uma decisão errada na frente de todos e só descobrir quando o jogo já terminou.

6. O VAR terá de mostrar ao árbitro (e ao público, no telão do estádio) todos os registros da jogada que está em revisão, e não apenas os ângulos que o próprio VAR julga serem mais importantes. Já que a decisão final é do árbitro de campo, o que o VAR precisa fazer é informá-lo, e não impor (às vezes reprisando o lance 20 vezes) um único ângulo que favorece uma única interpretação. Escamotear os diversos ângulos da jogada (que estão, afinal, à disposição) deve ser considerado como uma tentativa de manipular o árbitro e influenciar o resultado.

7. Só poderá haver prorrogação no último jogo (na final) de um torneio. Outra opção seria abolir as prorrogações, principalmente se os próprios jogadores, finalmente consultados, assim decidissem. Em 2018 a Croácia chegou à final da Copa do Mundo com três prorrogações nas costas, ou seja, tendo jogado um jogo inteiro a mais do que seu adversário. Menos descansada (e ainda por cima operada pela arbitragem), a Croácia não conseguiu superar a boa equipe francesa.

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Acredito que as mudanças acima ajudariam a transformar o futebol (e principalmente o nosso futebol sul-americano) num esporte (num produto?) muito mais interessante.

Por outro lado, creio que também seria proveitoso, sobretudo do lado de baixo do equador, dar um aperto disciplinar em árbitros e jogadores. Estes comportam-se como crianças mimadas, o que, além de irritante e cansativo para os adultos, dá um péssimo exemplo para todos, o que é justamente o contrário do que se espera do esporte.

1. Jogadores do time contra o qual foi marcada uma falta não poderiam mais tocar na bola, e muito menos no jogador adversário que recebeu a falta. Eles tampouco poderiam tentar retardar ou atrapalhar a cobrança. Aos infratores, cartão amarelo.

2. Apenas um jogador (não precisa ser o capitão do time) estaria autorizado a questionar ou pressionar o árbitro em cada lance; ele seria, naquele momento, o porta-voz do time e não poderia receber cartão amarelo a não ser que passasse dos limites; em compensação, todos os jogadores que porventura se juntassem a ele na reclamação receberiam cartão amarelo.

3. As simulações incontestáveis passariam a ser invariavelmente punidas com cartão amarelo. Chamo de “simulações incontestáveis” apenas aquelas a respeito das quais não houver a menor dúvida, como a do jogador que é tocado no quadril e cai com a mão no rosto. Nesses casos o VAR poderia intervir.

4. Por fim, árbitros (em campo ou no VAR) poderiam receber uma pontuação negativa sempre que deixassem de aplicar a regra do jogo e poderiam ser “rebaixados” para divisões inferiores quando sua pontuação atingisse um determinado limite. Em casos extremos, poderiam sofrer punições maiores.

Não estou propondo uma caça às bruxas, apenas um pequeno aperto disciplinar que acarretaria, como bônus, um jogo com bem menos interrupções.

Já perdi a conta das partidas escandalosamente manipuladas pelos árbitros, dentro de campo e na cabine do VAR, e não acredito que as mudanças que proponho irão jamais acontecer; mas meu combustível não é a esperança, e saber que tentei contribuir para esse debate é recompensa suficiente. Não estou deitando regras; as regras atuais, que permitem arbitrariedades inadmissíveis, é que foram deitadas.

No mais, levando-se em conta que parei de comer pão, coisa que eu adorava fazer, não será tão difícil assim dispensar o circo.

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Corrupção Esporte Futebol Imprensa Jornalismo

O que o futebol me ensinou?

O futebol, que foi toda uma escola de moralidade para Albert Camus, também me proporcionou uma oportunidade de aprendizado. Aconteceu há muitos anos, quando percebi que um determinado locutor usava invariavelmente a expressão choque de cabeça para descrever aquilo que havia sido claramente uma cabeçada de um jogador contra o outro. Qualquer adolescente de 15 anos sabe que os profissionais de imprensa interpretam os fatos de acordo com a linha editorial do jornal para o qual trabalham, mas aquilo era diferente. Os espectadores estavam assistindo às imagens, que muitas vezes não davam margem a dúvidas, mas elas eram deliberadamente falseadas, ao vivo e a cores, pelo discurso do locutor.

Aquilo não era obra do acaso, e tampouco exprimia uma dificuldade cognitiva do locutor em questão. Ele só podia estar obedecendo a uma determinação do veículo para o qual trabalhava. E isso significava, portanto, que (ao menos naqueles casos) a política da emissora era mascarar os fatos em vez de reportá-los

Mas se um veículo de comunicação se dispõe a fazer demonstrações de extremo cinismo numa simples partida de futebol, o que seria ele capaz de fazer, em casos realmente importantes, para preservar assinantes, patrocinadores e verbas governamentais?

Foi uma lição valiosa.

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1. Depois da elaboração deste texto fiz a seguinte pergunta ao ChatGPT: “Tenho notado que locutores de futebol geralmente interpretam cabeçadas intencionais de um jogador sobre outro com uma expressão neutra (e incorreta) como “choque de cabeça”. Por que isso acontece? Existe uma política nos meios de comunicação que tenta ocultar do público possíveis agressões dos jogadores? E se existe, por que isso acontece?” Vale a pena conferir a resposta.

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Documentos Esporte Filosofia Futebol

Hoje tem futebol?

Então tire as crianças da frente da TV

Camus

“Car, après beaucoup d’années ou le monde m’a offert beaucoup de spectacles, ce que finalement je sais sur la morale et les obligations des hommes, c’est au sport que je le dois, c’est au R.U.A. [Racing Universitaire d’Alger] que je l’ai appris.”

Albert Camus¹

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O texto acima foi publicado pela primeira vez em 15 de abril de 1953, num boletim do time argelino no qual um jovem Albert Camus jogou como goleiro; nele, o escritor revela que, no fim das contas, deve ao esporte (ao futebol) tudo o que aprendeu sobre a moral e as obrigações dos homens

Não duvido que muitos jogadores de futebol (não todos) continuem aprendendo, em seus ambientes de trabalho, as competências mencionadas por Camus. Mas o mundo mudou muito de 1953 para cá, e com ele o futebol, que se tornou um negócio bilionário envolvendo não apenas bilheterias, mensalidades de associados e venda de jogadores, mas também patrocínios, direitos de televisão e apostas, muitas apostas.

Com tanto dinheiro envolvido, não é de admirar que o futebol atual tenha se tornado competitivo ao extremo, bem mais parecido com o atletismo do que com o balé, e que a corrupção tenha se tornado um fenômeno generalizado.

Voltarei a esse tema depois, pois ele dá margem a desdobramentos interessantes. Por ora, tenho apenas uma pergunta a fazer.

O que diria Albert Camus (que também era dramaturgo) sobre as (péssimas) atuações dos jogadores de hoje, que por qualquer motivo (ou até sem motivo) levam as mãos ao rosto e caem no gramado contorcendo-se em fingidas dores? E se alguém lhe dissesse que um espetáculo como esse não é apropriado para menores de idade — o que será que ele responderia?

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1. «Ce que finalement je sais sur la morale…». Le Footchiste, 2013.05.14. URL: <https://www.footichiste.com/football-albert-camus/>. Acesso em 2025.10.30.

2. Esse texto foi republicado numa revista francesa em 1957, ano em que Camus ganhou o Nobel de Literatura. The morality of football and the philosophy of Albert Camus, IN Scottish Sport History. URL: <https://www.scottishsporthistory.com/sports-history-news-and-blog/the-morality-of-football-and-the-philosophy-of-albert-camus>. Acesso em 2025.10.30.

Fonte: Andy Mitchell

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Conceito Filosofia Linguagem O que é?

O que é coincidência?

O verbo co-incidir significa “incidir ao mesmo tempo”. A palavra é formada de maneira semelhante a co-operar, “trabalhar em conjunto”, e a co-memorar, “celebrar conjuntamente (de forma coletiva) uma memória”.¹

Vejamos um exemplo de coincidência: uma esposa passa em frente a um hotel no exato momento em que seu marido sai de lá com outra mulher.

Por que, nesse exemplo, se diz que houve uma coincidência? Porque marido e esposa, sem que tenha havido uma combinação prévia entre eles, co-incidiram no tempo e no espaço. A coincidência, portanto, é um simples fato que, como qualquer outro, reclama uma explicação. Por que a esposa passou em frente ao hotel justo naquele momento? É possível enumerar várias hipóteses. Talvez ela tenha sido advertida por um detetive particular; talvez ela tenha sido guiada por algum indício ou, quem sabe, por uma intuição; talvez sua presença no local tenha sido meramente casual; talvez exista algo semelhante a uma providência divina.

Pode-se afirmar ou negar cada uma dessas hipóteses (e muitas outras), mas a coincidência nela mesma é o fato (o problema) a ser elucidado.

Afirmar que o acaso explica uma determinada coincidência, portanto, é apenas enunciar uma hipótese entre outras. Isso equivale a dizer, numa linguagem mais técnica, que a relação entre a noção de coincidência e a noção de acaso é sintética, e não analítica: é possível unir as duas noções por meio de um juízo, mas a noção de acaso não está implicada na noção de coincidência.

É exatamente por isso que, para afirmar que uma coincidência ocorreu por acaso, não basta chamar, tautologicamente, a co-incidência de… coincidência. É obrigatório juntar à palavra um marcador linguístico que exclua todas as outras possibilidades: por exemplo, “foi uma simples coincidência”, “foi mera coincidência”, “foi apenas uma coincidência”. O papel desses marcadores é reduzir a coincidência ao puro fato da co-incidência e excluir, de antemão e em definitivo, até mesmo a possibilidade de propor uma hipótese que viesse a explicá-la por uma razão qualquer. Não é por outro motivo que os avisos legais exibidos em filmes trazem sempre um desses marcadores: ainda que a ficção cinematográfica e a realidade fora das telas possam co-incidir na imaginação do espectador, qualquer semelhança é mera coincidência, tradução de purely coincidental.

Assim, quando uma pessoa diz que “não existe coincidência“, é porque ela não chegou a refletir sobre aquilo que está dizendo; e o que ela está realmente tentando dizer é que “nada acontece por acaso“. Ouvir alguém dizer que “não existe coincidência” dói nos ouvidos de quem aprecia o rigor no uso das palavras, e essa dor puramente linguageira independe de qualquer crença ou afirmação filosófica sobre a existência ou inexistência do acaso.

Pode-se dizer, entretanto, que a confusão em torno dessa palavra é um daqueles casos quase “benignos” de imprecisão linguística: causados pela falta de reflexão sobre aquilo que se está a dizer, eles empanam a língua mas não acarretam maiores consequências práticas. Infelizmente, como se verá em futuras postagens da série “O que é?”, existem também imprecisões que eu hesitaria em chamar de benignas, produzidas de forma deliberada para confundir o debate público.

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1. Há muitos anos vi uma escritora brasileira (cujo nome não irei declinar) dizer, no programa Sem Censura, que a palavra comemorar deriva de “comer” e “morar”.

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Distopia Informática Inteligência artificial Privacidade Sistema operacional Windows

Virando a página

Há momentos críticos nos quais sinto-me forçado a dar meu testemunho, independentemente de qualquer consideração a respeito de sua eficácia ou de seu alcance. O fim do suporte ao Windows 10 é um desses momentos, pois seu sucessor é tão abertamente invasivo, e os planos da Microsoft para o futuro são tão abertamente megalomaníacos, que é impossível ficar calado.

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David Weston, vice-presidente corporativo da Microsoft na área de segurança de sistemas: para alimentar a IA, nossos computadores precisam “ver o que nós vemos” e “ouvir o que nós ouvimos” (2025).

É claro que a Microsoft não detém o monopólio da distopia; bem ao contrário, a disputa nesse terreno é bastante acirrada.

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Mark Zuckerberg no Mobile World Congress (2016).

Embora preste muita atenção às discussões sobre esse tema, estou longe de ser um ativista dos direitos digitais. E como não uso redes sociais, mas uso computadores de mesa há mais de 30 anos, é claro que as manobras da Microsoft teriam de chamar minha atenção de maneira muito incisiva. Isso levou-me a fazer, nas últimas postagens, um mapeamento de algumas entre as muitas possibilidades que estão, neste momento crítico, à disposição das pessoas. O que elas farão com essas informações já não depende de mim.

Hora de virar a página e voltar ao (meu) trabalho.

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Distopia Informática Inteligência artificial Privacidade Sistema operacional Windows

Eles querem ouvir sua voz…

…mas isso não é necessariamente uma boa notícia.

2030

“O mundo de, tipo assim, ficar por aí usando mouse e digitando no teclado se tornará tão estranho [para as pessoas] quanto é hoje, para a geração Z, tipo assim, usar MS-DOS.” (tradução livre)

As palavras acima são de David Weston, vice-presidente corporativo da Microsoft na área de segurança de sistemas. Elas abrem o vídeo “Microsoft Windows 2030 Vision”, no qual ele deseja vender (entre outras coisas) a idéia de que dispositivos dotados de Inteligência Artificial e comandados por voz representam o futuro.

Segundo as estimativas do ChatGPT, entretanto, milhões de pessoas não conseguiriam e bilhões de pessoas não gostariam de usar seus dispositivos por meio de comandos de voz. As limitações seriam fisiológicas (entre 50 e 100 milhões de pessoas), ambientais (atividades em lugares ruidosos), tecnológicas (sotaques ou idiomas sem suporte, dispositivos ou conexão à Internet inadequados) e até sociais (culturas nas quais falar com máquinas não é algo bem visto). Nessa mesma “conversa” o ChatGPT revelou que “pesquisas da Microsoft, Google e Pew Research indicam que 40–60% dos adultos raramente usam comandos de voz, mesmo tendo acesso a eles.”

É claro que o executivo da Microsoft conhece essas pesquisas. Por que, então, ele tenta retratar tecnologias testadas e aprovadas (como teclado e mouse) como algo a ser ultrapassado? Por que ele está tão determinado a vender um futuro que, além de indesejado das gentes, seria tão excludente para tantas pessoas? E por que ele finge não saber que até a geração Z está usando comandos de texto (tipo assim MS-DOS) para obter respostas e gerar imagens nas diversas IAs?

A inautenticidade do argumento é tão patente que me chamou a atenção. Afinal, por que os comandos de voz se tornaram, do dia para a noite, tão importantes para a Microsoft? Fui dormir pensando nisso e acordei com uma hipótese, que fui testar com esta pergunta para o ChatGPT:

Como você compararia o treinamento das Inteligências Artificiais em três áreas distintas: texto, imagem e voz? Qual delas está mais desenvolvida, qual delas é a menos desenvolvida?

Mistério resolvido: a voz é a área menos consolidada das IAs. Elas continuam famintas por textos e imagens, mas a fala humana é sua última fronteira.

É um bom tema para um conto infanto-juvenil: a história de um monstro que se alimenta da voz humana. Que tal escrevê-lo? Só não vale usar o ChatGPT.

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Informática Internet Linux Privacidade Sistema operacional Windows

O último Windows

Se você ainda não está convencido de que o Windows 10 é a última versão usável do sistema operacional da Microsoft, é porque ainda não sabe o suficiente sobre o Windows 11. A boa notícia, no entanto, é que a estratégia que irei apresentar aqui pode ser utilizada com qualquer versão do Windows. O essencial é compreender o que está em jogo e agir de acordo.

O princípio é o mais simples possível: assim como evitamos transmitir qualquer informação relevante à nossa vizinha fofoqueira, precisamos parar de fornecer informações pessoais ao sistema operacional que “vê o que nós vemos” e “ouve o que nós ouvimos”, ou seja, nos espiona 24 horas por dia.¹

É por isso que o uso do Linux, de uma hora para outra, deixou de ser opcional. Não posso confiar meus dados e informações pessoais mais importantes justamente à minha vizinha fofoqueira.

Por outro lado, se existem problemas que só posso resolver usando programas feitos para rodar no Windows, não há motivo para fazer drama: eu irei usá-lo apenas para rodar esses programas.

As opções são muitas. Por exemplo, se meus dicionários eletrônicos só rodam em Windows, posso usá-los numa máquina virtual Windows dedicada à produção textual; mas posso também instalar uma cópia do Windows em dual boot para fazer coisas que só faço ocasionalmente, como jogar videogame ou fazer edição de áudio. E uma vez que essa versão do Windows deixe de receber atualizações, ela poderá ser congelada, ou seja, mantida offline (desconectada da Internet) por razões de segurança. Eu nem mesmo me importaria de congelar todos os meus programas e jogos juntamente com o Windows 10, mas é claro que nem todo mundo está disposto a isso. Por outro lado, é possível, e mesmo provável, que o desenvolvimento da emulação no Linux torne cada vez mais desnecessário o uso do Windows para rodar esses programas; e que o desenvolvimento do próprio Linux permita finalmente substituí-los por programas nativos. Eu levei isso em conta, por exemplo, quando comprei o SoftMaker Office, produzido na Alemanha e que roda no Windows, no Linux e no Android; deixei de depender do Microsoft Office, mas ao mesmo tempo não serei forçado a usar as opções de código aberto oferecidas no ambiente Linux.

Em resumo, o objetivo da política que estou apresentando aqui é muito simples: fazer com que os dados pessoais compartilhados no Windows sejam reduzidos a zero ou praticamente zero. Para isso, no entanto, e seja qual for a versão do Windows que se use para rodar jogos ou programas específicos, será preciso usar alguma distribuição do Linux (existem várias, a escolher) como sistema principal.

Por fim, mas não menos importante, há uma versão do Windows 10 um tantinho antiga (21H2)² chamada Windows 10 IoT Enterprise LTSC 2021. “IoT” é um acrônimo para Internet of Things; produzida para a chamada Internet das Coisas, ela é a versão mais enxuta do Windows, mas fornece todos os componentes necessários para rodar o sistema e só deixará de receber atualizações de segurança em 13 de janeiro de 2032, ou seja, daqui a mais de 6 anos.

O Windows 10 IoT Enterprise LTSC 2021 é fornecido apenas em Inglês, mas pacotes de linguagem podem ser instalados normalmente. O tradicional site de notícias The Register publicou sobre ele uma matéria que merece uma leitura atenta. É a derradeira versão do último Windows.

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1. “Microsoft Windows 2030 Vision with David Weston”. Vou analisar um trecho desse vídeo dentro de alguns dias.
2. A versão final do Windows 10 é a 22H2.

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Informática Linux Sistema operacional Windows

Dual boot na terra do sol

Existem programas que não possuem equivalentes no Linux; por exemplo, há excelentes versões antigas de dicionários eletrônicos profissionais que só rodam no Windows. Existem duas possibilidades de rodar esses programas dentro do Linux: diretamente, por meio de um emulador do Windows como o Wine; e por meio de uma máquina virtual.

Máquinas virtuais, entretanto, exigem um computador mais forte para serem usadas com conforto. O hardware não precisa ser recente; precisa apenas oferecer recursos suficientes. O ideal é que se possa dedicar à máquina virtual uma generosa quantidade de memória e ao menos dois processadores. Assim, se a emulação não funcionar, mas o hardware for bom o bastante, o caminho mais óbvio para montar uma máquina de tradução com dicionários profissionais Windows dentro do Linux seria instalando uma máquina virtual.

Mas há muitos jogos e muitos programas profissionais complexos que (ao menos por enquanto) não rodam no Linux de jeito nenhum e (ao contrário dos dicionários) são pesados demais para serem executados numa máquina virtual. Programas como esses, que não têm versões para Linux ou concorrentes à altura que rodem no Linux, acabam forçando determinados usuários a manter uma cópia do Windows em funcionamento. Qual seria a melhor maneira de rodar os dois sistemas ao mesmo tempo, beneficiando-se das vantagens que cada um deles oferece?

Tudo depende, evidentemente, dos recursos que se tem para investir em equipamento. Quem tem dinheiro sobrando simplesmente monta duas máquinas fortes e modernas, uma com o Windows e outra com o Linux. Isso, no entanto, está longe de ser necessário. Quem já possui dois computadores pode, por exemplo, instalar o Linux que será usado para navegação diária naquele PC bacana de 2014 que estava encostado e usar a máquina mais moderna para rodar jogos e programas profissionais pesados. Note que o PC Linux nem mesmo irá requerer uma placa de vídeo dedicada, ou poderá usar uma placa antiga e bem menos potente.

Quem não possui dois computadores (e tampouco tem recursos para comprar um PC novo) pode resolver o problema apenas comprando um SSD. Foi o que eu fiz. Ao ser instalado num novo SSD, o Debian 12 detectou automaticamente a instalação prévia do Windows no SSD antigo. Assim, a cada boot, posso escolher (por meio do menu do GRUB) qual dos dois sistemas quero rodar naquele momento e qual deles será definido como o sistema padrão. Eu diria que esse é o dual boot ideal, pois cada sistema operacional está instalado em seu próprio disco. No entanto, para que essa mágica aconteça, é importante instalar o Windows primeiro e o Linux depois.

Não é que seja impossível instalar os dois sistemas num único disco, mas existem SSDs com preços mais em conta e esse é o tipo de economia que eu não recomendo.

Hoje, dia 14 de outubro de 2025, encerra-se oficialmente o suporte para o usuário doméstico do Windows 10 (Home e Pro). Nesta postagem expliquei que existe uma maneira de estender o suporte por mais um ano. Porém um ano passa rápido; o que fazer depois disso? Quais são as alternativas? Afinal, por que aprender a usar o Linux é tão importante assim? É verdade que existe uma determinada versão do Windows 10 que receberá atualizações de segurança até 2031? Veremos tudo isso na próxima postagem.

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Informática Internet Linux Privacidade Redes sociais Sistema operacional

A era do Linux

Entre 55% e 70% dos usuários de PCs usam suas máquinas apenas para tarefas básicas como acessar e produzir documentos, visualizar e editar imagens, ler e enviar emails, navegar na Web, fazer compras e usar redes sociais. Num universo de 1,4 bilhão de PCs em atividade, o número desses usuários pode variar entre 700 milhões e 980 milhões de pessoas.¹

Você sabia que todas essas tarefas simples (e muitas outras, como administrar e produzir conteúdo para um site como este) podem ser feitas normalmente num Sistema Operacional (SO) Linux? Eu venho experimentando uma versão recente desse SO há algum tempo, e não vejo nenhuma razão que impeça qualquer pessoa de usá-lo em seu laptop ou em seu PC de mesa (desktop). Como alguém que rodou exclusivamente o MS-DOS durante cerca de dois anos, é claro que eu me meti a besta e instalei o Debian 12, que não é dos mais difíceis mas também não é feito para principiantes. No entanto, como pretendo instalar o Linux também no PC de minha esposa, e como será muito mais fácil administrar dois sistemas idênticos, já estou de olho na próxima edição do Linux Mint.

Há muito tempo o Linux domina o mercado para servidores. Esta página está hospedada num servidor Linux; e se por acaso você está usando um celular Android para lê-la, você está usando um sistema operacional baseado no Linux. Para que seu uso se tornasse popular também em computadores de mesa, era preciso que o SO se tornasse mais amigável, mas isso, felizmente, já aconteceu. Leia a seguir o resumo que o ChatGPT apresentou sobre essa questão:

A grande maioria dos usuários domésticos de PC (acima de 60%) poderia adotar o Linux sem perda de produtividade ou conforto, desde que recebessem: (1) um sistema já configurado (ex.: Ubuntu, Mint, Zorin, Fedora); (2) um navegador e suíte de escritório prontos; (3) suporte básico a drivers e impressoras. Em outras palavras: o obstáculo à migração é mais cultural e psicológico do que técnico. Para o uso comum, o Linux já entrega tudo — e com menos riscos de vírus, sem custos de licença e sem coleta intrusiva de dados.

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Mas o que fazer com aqueles programas dos quais é impossível abrir mão (note que eu não estou me referindo ao Microsoft Office…) e que não rodam em Linux? Há varias soluções possíveis, e irei falar sobre elas na próxima postagem.

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1. Os números são estimativas do ChatGPT.