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De olho na porqueira

Já expliquei que tenho por regra manter-me longe da pequena política. Como quase toda regra, também essa tem suas exceções, e vez por outra sinto um impulso irresistível de fazer uma inspeção de surpresa numa pocilga qualquer.

Isso geralmente acontece quando percebo que a imprensa local não esmiuçou suficientemente um caso que está bem documentado em fontes estrangeiras. O recente escândalo envolvendo a BBC é o exemplo mais recente desse tipo de trabalho.

Outro campo que desperta meu interesse é o da corrupção institucional. Ao contrário da corrupção política, conhecida de todos porque valentemente denunciada por jornalistas que honram sua profissão, a corrupção institucional é mais dissimulada e tende a ser discutida apenas em círculos restritos. Embora seja pervasiva e altamente deletéria, ela raramente é notada e noticiada para um público mais amplo.

A distinção é importante. A corrupção em instituições públicas e privadas é praticada por agentes individuais claramente identificáveis, e caracterizada pela circulação de dinheiro e/ou favores entre eles. Corrupção institucional é outra coisa. Um exemplo muito conhecido e bem documentado é o da indústria de tabaco, que teve êxito em estabelecer um consenso científico em torno da dificuldade de estabelecer inequivocamente que o hábito de fumar faz mal à saúde. Essa incerteza era suficiente para atrasar a regulação do tabaco e manter o lucro em patamares elevados. É essencial compreender que nesse cenário, ao contrário do que acontece na corrupção “comum”, apenas alguns atores eram fundamentalmente corruptos e tinham plena consciência do que estava acontecendo. Muitos cientistas apenas cumpriam regras formais e seguiam protocolos reconhecidos, agindo de boa fé e sem perceber que o consenso científico gerado naquele ambiente institucional corrupto era, ele mesmo, corrupto.

Não tenho tempo (nem vontade), no entanto, para trabalhar nos problemas complexos envolvidos na corrupção institucional, como, por exemplo, a captura de agências reguladoras; também não tenho competência em matemática e estatística para analisar comme il faut a manipulação da produção científica. Em compensação, sou capaz de detectar as artimanhas e falácias usadas pelas corporações para convencer o público de que tudo é feito no seu melhor interesse. É coisa simples que não me tomará demasiado tempo, mas que poderá abrir os olhos de muita gente.

Em breve irei inspecionar as insistentes propagandas (disfarçadas de notícia) das canetas emagrecedoras.

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Por que evito falar sobre a pequena política

Porquinhos se abraçando na Natureza

Como tantas vezes acontece, a resposta está contida na própria pergunta: evito falar sobre a pequena política porque ela é pequena. Não é que eu, num delírio narcísico, ache-me grande o bastante para ostentar essa “indiferença olímpica” da qual um gigante como Goethe chegou a ser acusado.¹ Minhas razões são bem diferentes. Em primeiro lugar, esse não é o meu trabalho. Não sou jornalista, e muito menos jornalista político; embora procure manter-me informado, pouco (ou nada) teria a acrescentar àquilo que já virou notícia e comentário. Em segundo lugar, este não é o lugar apropriado. Quem quer falar sobre política vai às redes sociais, que são as praças públicas digitais de nossa época.

Nada disso significa, porém, que eu seja um ἰδιώτης; significa apenas que privilegio a grande política (em detrimento da pequena). Quando fiz graduação em História, nada me fascinava mais do que a história das mentalidades; assim, não surpreende que meu mais recente trabalho filosófico (sobre a produção de si e do outro) situe-se na interseção entre ontologia, subjetividade e vida social, porém tão longe quanto possível da pequena política.

Há ocasiões, porém, em que me desvio do meu foco e acabo dedicando um esforço a uma atualidade jornalística. Depois explicarei o porquê dessas exceções. Por ora, deixo aqui um atalho para um desses artigos de ocasião, “A BBC errou?“, que acaba de ser publicado na Revista Athena.

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1. CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Brasília, Edições do Senado Federal, Volume 3, p. 1712.

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Por que não uso redes sociais?

Antigos ICHF (à esquerda) e Instituto de Matemática da UFF (à direita)

Não tenho Facebook. Cheguei a usar o Instagram na época em que ele servia para postar fotos e acompanhar as postagens de algumas pessoas, mas ele se tornou um shopping e eu não voltarei a usá-lo. Abri uma conta no antigo Twitter em 2011, mas não a uso para nada. Em breve deixarei de usar até o WhatsApp, que estou substituindo pelo Signal. Outras redes? Nem pensar. A rigor, nem mesmo telefone eu uso, e só tenho um número porque sou forçado a isso; mas o modo avião é meu amigo.

Como explicar esse aparente isolamento? Digo aparente porque tenho um canal no YouTube cujo tamanho diminuto ainda me permite responder todas as mensagens que recebo; participo de alguns fóruns que tratam de temas que me interessam; e como qualquer mortal com acesso à Rede, uso o email para comunicar-me. Aliás, quem visita este site pode mandar-me um email a qualquer hora.

Não há, portanto, isolamento algum. Não posso dizer que vi a Internet nascer, mas eu estava lá quando ela se popularizou no Brasil. Meus primeiros acessos, realizados no prompt de comando de um sistema UNIX, se deram em 1997 no laboratório de informática da UFF. Detesto celulares (aquela coisa na qual você pode arruinar sua vida encostando um dedo no lugar errado) e nunca tive dinheiro para desperdiçar em laptops, mas uso PCs desde 1993 e finalmente aprendi a montá-los em 2010. E é claro que no começo do século eu tive redes sociais (orkut, alguém?) e conversei no MSN e em salas de bate-papo; mas hoje essas coisas pertencem, juntamente com as fitas VHS, a um passado distante.

Não sei até que ponto as pessoas sabem disso nos dias de hoje, mas quando a Web foi inventada a palavra-chave era hipertexto. Ao produzir links umas para as outras, as páginas se entrelaçavam e criavam uma teia (web) que podia ser trilhada em qualquer direção por qualquer navegador. Nem todas as pessoas podiam ou queriam rodar seu próprio servidor, mas isso nunca foi um problema; o ponto era que todos, ao menos em tese, podiam produzir sua própria página pessoal e contratar um servidor para hospedá-la. Rapidamente surgiram serviços que hospedavam páginas “de graça” em troca da exibição de anúncios. Quem quiser ter uma idéia do que era a web nessa época (e de como o mau gosto predominava na maioria das páginas) pode dar uma olhada nesta galeria do Geocities.

Para resumir num piscar de olhos uma longa história, esse modelo aberto e descentralizado da web foi quase que completamente substituído pelo modelo altamente centralizado das redes sociais. Quem antes hospedava sua página no servidor de sua preferência tem agora uma “conta” numa plataforma gigante sobre a qual não tem controle algum; quem antes compartilhava apenas o que queria, e nada mais, tem agora suas informações pessoais ordenhadas por algoritmos cada vez mais sofisticados. É bem verdade que a interação com outras pessoas foi simplificada ao máximo, mas esse benefício foi obtido às custas de várias renúncias.

Não é apenas para preservar minha privacidade que eu não uso redes sociais; essa nem mesmo é a razão principal. Eu poderia, se quisesse, escrever uma postagem duas vezes maior do que esta apenas falando sobre todas as razões pelas quais não uso redes sociais, mas prefiro resumir tudo num único ponto: eu não as uso para poder usufruir do silêncio que essa decisão me proporciona. Quem não ama (ou ao menos suporta) o silêncio está condenado a viver em meio ao ruído.

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Por que em Inglês?

Durante mais de 30 anos eu traduzi para o Português palavras oriundas do universo da informática. Cheguei até a traduzir alguns programas, entre eles o SumatraPDF. Existem transposições que já foram consagradas em nossa língua; assim, não há razão para escrevermos page, post ou hard disk, pois suas traduções página, postagem e disco rígido são sonoras e absolutamente adequadas. Certas palavras podem ser consideradas limítrofes: por exemplo, eu até poderia chamar meu mouse de rato, como fazem os portugueses, mas não o da minha esposa, que, a rigor, não passa de um camundongo. Outras palavras, dependendo do contexto ou da classe gramatical, podem ou não ser traduzidas; assim, ora eu uso programa, ora eu uso software; e embora use com gosto os verbos subir e baixar, permito-me usar também (como substantivos) as palavras upload e download. Prefiro não traduzir hardware, e palavras como site ou website parecem-me (hoje em dia) infinitamente melhores do que sítio. Vale lembrar, por fim, que existem termos de informática em Inglês que apenas nós usamos, como pen drive, dispositivo móvel que lá fora é conhecido como flash drive ou USB stick.

Em resumo, hoje penso que a adoção (refletida!) de palavras em outras línguas é muito mais saudável do que a busca de um ideal de pureza. Atire a primeira pedra quem nunca comeu um croissant.

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o ponto cinza de paul

O sábio O iniciado pressente o ponto original da vida: ele possui um pequeno número de átomos viventes sob forma de conceitos que tornam possível o ato da criação; ele conhece um pequeno ponto cinza que permite fazer o salto do caos à ordem.”

Paul Klee

La pensée créatrice, trad. Sylvie Girard.
Paris, Dessain e Tolra, 1980, p. 60.
(A correção no início do texto é do próprio Paul Klee)

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ponto cinza

Mais de 20 anos depois da minha primeira experiência desse tipo (que remonta a 1998), voltei a investir num website com seu próprio nome de domínio.

Desse modo, minha vida virtual, que andava um tanto dispersa, passará a concentrar-se aqui. Não custa aproveitar a ocasião para avisar: não uso redes sociais. Tenho, no entanto, um canal no YouTube que pretendo usar mais amiúde no futuro.

Seja bem-vindo ou bem-vinda!