Há momentos críticos nos quais sinto-me forçado a dar meu testemunho, independentemente de qualquer consideração a respeito de sua eficácia ou de seu alcance. O fim do suporte ao Windows 10 é um desses momentos, pois seu sucessor é tão abertamente invasivo, e os planos da Microsoft para o futuro são tão abertamente megalomaníacos, que é impossível ficar calado.
David Weston, vice-presidente corporativo da Microsoft na área de segurança de sistemas: para alimentar a IA, nossos computadores precisam “ver o que nós vemos” e “ouvir o que nós ouvimos” (2025).
É claro que a Microsoft não detém o monopólio da distopia; bem ao contrário, a disputa nesse terreno é bastante acirrada.
Mark Zuckerberg no Mobile World Congress (2016).
Embora preste muita atenção às discussões sobre esse tema, estou longe de ser um ativista dos direitos digitais. E como não uso redes sociais, mas uso computadores de mesa há mais de 30 anos, é claro que as manobras da Microsoft teriam de chamar minha atenção de maneira muito incisiva. Isso levou-me a fazer, nas últimas postagens, um mapeamento de algumas entre as muitas possibilidades que estão, neste momento crítico, à disposição das pessoas. O que elas farão com essas informações já não depende de mim.
Hora de virar a página e voltar ao (meu) trabalho.
“O mundo de, tipo assim, ficar por aí usando mouse e digitando no teclado se tornará tão estranho [para as pessoas] quanto é hoje, para a geração Z, tipo assim, usar MS-DOS.” (tradução livre)
As palavras acima são de David Weston, vice-presidente corporativo da Microsoft na área de segurança de sistemas. Elas abrem o vídeo “Microsoft Windows 2030 Vision”, no qual ele deseja vender (entre outras coisas) a idéia de que dispositivos dotados de Inteligência Artificial e comandados por voz representam o futuro.
Segundo as estimativas do ChatGPT, entretanto, milhões de pessoas não conseguiriam e bilhões de pessoas não gostariam de usar seus dispositivos por meio de comandos de voz. As limitações seriam fisiológicas (entre 50 e 100 milhões de pessoas), ambientais (atividades em lugares ruidosos), tecnológicas (sotaques ou idiomas sem suporte, dispositivos ou conexão à Internet inadequados) e até sociais (culturas nas quais falar com máquinas não é algo bem visto). Nessa mesma “conversa” o ChatGPT revelou que “pesquisas da Microsoft, Google e Pew Research indicam que 40–60% dos adultos raramente usam comandos de voz, mesmo tendo acesso a eles.”
É claro que o executivo da Microsoft conhece essas pesquisas. Por que, então, ele tenta retratar tecnologias testadas e aprovadas (como teclado e mouse) como algo a ser ultrapassado? Por que ele está tão determinado a vender um futuro que, além de indesejado das gentes, seria tão excludente para tantas pessoas? E por que ele finge não saber que até a geração Z está usando comandos de texto(tipo assim MS-DOS) para obter respostas e gerar imagens nas diversas IAs?
A inautenticidade do argumento é tão patente que me chamou a atenção. Afinal, por que os comandos de voz se tornaram, do dia para a noite, tão importantes para a Microsoft? Fui dormir pensando nisso e acordei com uma hipótese, que fui testar com esta pergunta para o ChatGPT:
Como você compararia o treinamento das Inteligências Artificiais em três áreas distintas: texto, imagem e voz? Qual delas está mais desenvolvida, qual delas é a menos desenvolvida?
Mistério resolvido: a voz é a área menos consolidada das IAs. Elas continuam famintas por textos e imagens, mas a fala humana é sua última fronteira.
É um bom tema para um conto infanto-juvenil: a história de um monstro que se alimenta da voz humana. Que tal escrevê-lo? Só não vale usar o ChatGPT.
No próximo dia 14 de outubro, que é também o dia internacional do lixo eletrônico, a Microsoft tornará obsoletos até 55% dos PCs atualmente em funcionamento, totalizando um número que pode chegar a 800 milhões de computadores.¹
Isso vai acontecer porque, após essa data, o Windows 10 será abandonado pela Microsoft e o usuário caseiro deixará de receber atualizações de segurança. Por sorte, essas correções continuarão sendo fornecidas às corporações, e tudo indica que o usuário caseiro poderá aceder a elas durante mais um ano.
Para receber as atualizações de segurança do Windows 10, no entanto, o usuário comum terá de vincular sua instalação a uma conta na Microsoft. O uso de uma conta online sempre foi opcional, e a maioria dos sistemas eram instalados por meio de uma conta local. Isso mudou em pouquíssimo tempo. Também o Windows 11 está tornando obrigatório o uso de uma conta na Microsoft.
Para mim, que tenho mais de 30 anos de experiência com computadores de mesa, o Windows 11 é um pesadelo distópico. Não quero usar um sistema operacional que tira fotos da minha tela a cada 5 segundos para treinar sua Inteligência Artificial. Também não quero ser forçado a vincular minha instalação ao uso de uma conta na Microsoft. Por fim, não pretendo jogar no lixo meus dois computadores velhos (que ainda funcionam perfeitamente) apenas porque a Microsoft decidiu que eles não são bons o bastante para rodar o Windows 11.
Mesmo que a vida do Windows 10 seja estendida por um ano (ou mais), isso não passa de uma solução temporária. Não pretendo instalar o Windows 11. Não quero gastar recursos de minha máquina e aumentar minha conta de energia para ajudar a treinar a IA da Microsoft. E, acima de tudo, não quero ter de me preocupar em desabilitar (sempre com o receio de que ele volte a ser habilitado em silêncio) um keylogger instalado no coração do sistema. O tempo e a energia gastos nesse jogo de gato e rato podem ser empregados em tarefas mais produtivas.
É o fim do Windows, mas infelizmente eu uso alguns softwares especializados que só rodam nesse sistema operacional.
E agora? Em breve irei compartilhar algumas possíveis soluções para esse problema.
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