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Quando o elogio da IA generativa conduz ao anti-intelectualismo

Em fevereiro de 2026 teve início uma controvérsia sobre uma colunista do jornal Folha de São Paulo que usa IA generativa para produzir seus artigos. Escrevi este texto para publicação naquele jornal e estive a um clique de enviá-lo, porém desisti ao ler os abusivos “termos para envio”, que me impediriam de republicá-lo onde bem entendesse. Menciono esse contexto porque ele explica a concisão e o caráter ao mesmo tempo polêmico e didático deste texto, no qual esforço-me para equacionar o problema diante de um público amplo e diverso. Equivocam-se apologistas e detratores do uso de IA generativa: estes não compreendem que também a produção textual é produção de mercadoria; aqueles manifestam uma concepção rudimentar (e nociva) do trabalho intelectual.

A IA é uma ferramenta de pesquisa extraordinária. Eu a uso sempre que quero testar uma hipótese ou buscar uma informação específica cuja obtenção demandaria uma longa e tediosa pesquisa. Também a uso quando quero confirmar aquilo que já sei (ou penso saber), mais ou menos como quem consulta o dicionário para verificar a regência ou as nuanças de sentido de uma palavra. Sempre atento, porém, pois assim como é temerário confiar nas etimologias gregas de um Aurélio, é impossível confiar plenamente na IA; afinal, ela é leitora contumaz da Wikipédia e não possui um nariz que nos alerte de suas alucinações.

Tudo muda de figura, entretanto, e deixa de ser pacífico, quando a IA é usada para a produção de textos. Para alguns críticos dessa prática, quem recorre à IA não seria muito diferente do aluno que faz seu trabalho de casa copiando o texto de uma enciclopédia e mudando algumas palavras para disfarçar o plágio; afinal, a IA só “pensa” (recombina, reorganiza) e “escreve” porque foi treinada previamente por meio de uma infinidade de textos humanos.

A crítica é injusta porque a analogia é fraca. Não podemos acusar o usuário de trapacear, especialmente se ele é franco e admite o uso da IA para obter seu texto. Além disso, se é esta que produz, é ele quem dirige o processo ao engendrar os comandos; e se a IA reproduz padrões ao “escrever”, não é de maneira mecânica e servil como no plágio, mas porque foi treinada com um número incompreensível de fontes cuja autoria não desapareceu por encanto, mas é geralmente muito difícil de ser rastreada.

Também há quem chame tais textos de “ultraprocessados da mente”. A analogia é chamativa, porém imperfeita, pois confunde processamento computacional e mental. A quantidade de processamento computacional investido na IA pode tender ao infinito, mas ela resulta (invariavelmente) num zero de processamento mental. O paralelo não funciona: o processamento excessivo empobrece e envenena os alimentos, mas costuma tornar os produtos do trabalho intelectual genuíno, esse mesmo que a IA é incapaz de fazer, mais rigorosos e sofisticados. A analogia também falha quando focamos nos efeitos do texto em vez de focar em seu processo de produção. Não é porque foi gerado por IA que um texto fará ao meu psiquismo o mal que o ultraprocessado faz ao meu corpo. Tal como o aluno que comete plágio, quem usa IA para gerar seus textos prejudica, a rigor, apenas a si mesmo. Desse ponto de vista, o uso infantil da IA generativa constitui, de fato, um problema dos mais sérios, sobretudo num cenário em que a produção humana de alimentos psíquicos deletérios (minimamente processados) é descomunal e não para de crescer.

O que os críticos do uso generativo da IA ainda não entenderam é que profissionais da palavra não têm a obrigação de serem escritores, e muito menos pensadores. Não se pode exigir que escrevam com seu sangue ou, no mínimo, com seu suor. A linguagem escrita nasceu como instrumento de registro contábil e, como atestam os milhões de placas afixadas nas imediações dos elevadores brasileiros, nem todas as publicações de ampla tiragem e difusão são obra de escritores. Não riam se um jornalista disser que o uso de IA na escrita é a “evolução do ofício”: ele está apenas sendo honesto. Desde que exista transparência a respeito desse uso, e que seus patrões o aprovem, cabe aos profissionais da palavra decidir se usarão robôs para obter ou melhorar seus textos; e se o artigo (a mercadoria) satisfaz os avisados leitores, o que há, objetivamente, é uma relação de consumo regulada por um contrato livremente estabelecido entre adultos. De resto, do mesmo modo que não me passa pela cabeça reivindicar o título de artista gráfico apenas porque obtive uma ilustração por meio de IA generativa, tampouco poderão esses profissionais apresentar-se como escritores. É um preço módico a pagar por um bem obtido sem esforço.

Tais equívocos não são nada, entretanto, se comparados ao erro cometido pelos apologistas do uso de IA generativa, que é insidioso. Ao chamar de “manual” o processo de elaboração que conduz da ideia ao texto final, eles desejam convencer-nos de que ele é tão completamente secundário que pode ser delegado a um robô; o que verdadeiramente importa é a ideia. É fácil reconhecer, nesse movimento de exaltação da causa formal e de depreciação da causa eficiente, o desprezo pelo trabalho manual que vigorou na antiga Grécia escravista e permanece vivo até hoje.

Só que a elaboração de um texto é um esforço intelectual, e não manual. Assim como a tarefa do maestro não é “manejar a batuta” e a do cirurgião não é “manejar o bisturi”, a tarefa do escritor não é dar com os dedos num teclado. Não faz sentido chamar de “manuais” essas atividades, ainda que todas impliquem o uso das mãos. Portanto, embora não o saibam, é ao esforço intelectual que os apologistas da IA generativa dirigem seu desdém.

Pensar, esforçar-se intelectualmente, é equacionar problemas. Não basta “ter” ou “contemplar” uma ideia, é preciso desenvolvê-la; não basta “levantar” um problema, é preciso estabelecê-lo ou equacioná-lo de forma correta e propor uma solução, ainda que provisória (como são, na maior parte das vezes, as soluções). O esforço intelectual se manifesta durante o processo que conduz da posição de um problema à sua resolução. É assim que o médico chega ao seu diagnóstico, o filósofo elabora seu conceito, o cientista testa sua hipótese e o romancista tece sua trama; é assim que o devido processo legal, baseado numa investigação criteriosa, substitui o boato e o linchamento. Não custa lembrar que também há esforço intelectual no trabalho “manual” daqueles que produzem bens essenciais como casas, móveis e refeições. Se você tem alguma dúvida, experimente saborear um prato preparado por alguém que simplesmente “seguiu uma receita”.

Para mim, abdicar da elaboração do texto, a um tempo seguindo e inventando as sinuosidades dos caminhos pelos quais um problema se desenvolve, e torna-se diferente de si mesmo ao desenvolver-se, seria renunciar àquilo que mais gosto de fazer na vida: aprender a pensar e escrever ao pensar e escrever. Não tenho, no entanto, a pretensão de ser a régua de outrem. Profissionais da palavra têm o direito de facilitar seu trabalho recorrendo a robôs para produzir e/ou polir seus artigos; eles só não têm o direito de desfigurar e depreciar o esforço implicado no trabalho intelectual autêntico, que tanta falta nos faz, apenas para defender seu ganha-pão.

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Hora do café com Claude

INSTRUÇÃO: Numa conversa anterior você disse que “não temos uma teoria que explique por que ou como qualquer processo físico gera experiência subjetiva.” Há, entretanto, nessa afirmação, um pressuposto oculto: o de que a experiência subjetiva é gerada por um processo físico qualquer.

07:13

Você fez uma observação filosófica precisa. A afirmação de fato carrega esse pressuposto embutido — o que os filósofos chamariam de um comprometimento implícito com alguma forma de fisicalismo ou materialismo: a ideia de que a experiência subjetiva tem como substrato, origem ou correlato necessário algum processo físico.

Mas esse pressuposto é exatamente o que está em disputa. Há pelo menos três posições que o questionam de maneiras distintas:

O dualismo de substâncias, na tradição cartesiana, nega que a mente seja ou derive de matéria. A experiência subjetiva pertenceria a uma ordem ontológica diferente, e o problema não seria explicar como a física gera consciência, mas como duas substâncias heterogêneas interagem.

O idealismo inverte a relação: não é a matéria que gera experiência, mas a experiência (ou algo mental) que é ontologicamente primário. O físico seria, de alguma forma, derivado ou dependente do mental — posição que aparece em Berkeley, em certas leituras de Kant, e mais recentemente em pensadores como Bernardo Kastrup.

O panpsiquismo dissolve a assimetria de outra maneira: a experiência não seria gerada pela matéria porque a matéria já teria, em algum grau primitivo, propriedades experienciais intrínsecas. Não há produção, há composição.

O que todas essas posições têm em comum é justamente recusar o quadro em que a pergunta “como processos físicos geram experiência?” faz sentido sem questionamento prévio.

Então sua observação toca num ponto metodológico importante: o “problema difícil da consciência”, como formulado por Chalmers, já está parcialmente formulado dentro de um vocabulário fisicalista. Perguntar “por que há algo que é ser X?” pressupõe que esse “algo” precisa de uma explicação em termos de outra coisa — geralmente física. Mas isso pode ser uma limitação do enquadramento, não uma descoberta sobre a natureza da consciência.

INSTRUÇÃO: Creio ser necessário fazer uma pequena correção: a ideia de que a experiência subjetiva tem como correlato necessário algum processo físico não é exclusiva do fisicalismo ou materialismo. Ela está presente, por exemplo, no panpsiquismo.

07:23

Você tem razão, e a correção é pertinente. Eu usei “fisicalismo” e “materialismo” de forma apressada, como se o comprometimento com correlatos físicos fosse exclusivo dessas posições.

O panpsiquismo é um exemplo claro do contrário: ele sustenta que há propriedades experienciais intrínsecas à matéria, o que significa que a relação entre experiência e processo físico é mantida — só que invertida ou fusionada em relação ao materialismo padrão. A experiência não é produto do físico, mas o físico já é, em algum nível, experiencial. O correlato físico permanece necessário; o que muda é a direção da dependência ontológica, ou melhor, a própria assimetria é dissolvida.

Então o pressuposto oculto que você identificou — de que há um correlato físico necessário para a experiência — é compartilhado por um espectro bem mais amplo de posições do que eu sugeri. Ele estaria ausente sobretudo no dualismo de substâncias clássico, onde a mente pode existir independentemente de qualquer processo físico, e em certas formas de idealismo, onde o físico é que depende do mental.

A distinção relevante, portanto, não é entre fisicalismo e suas alternativas, mas entre posições que mantêm algum vínculo necessário entre experiência e mundo físico — seja qual for a direção ou natureza desse vínculo — e posições que rompem esse vínculo completamente.

INSTRUÇÃO: Para finalizar, elabore uma pequena dissertação sobre o panpsiquismo de Raymond Ruyer.

07:31

Antes de escrever, preciso ser transparente: Raymond Ruyer é um filósofo relativamente pouco estudado fora da França, e embora eu tenha conhecimento geral sobre seu panpsiquismo — especialmente a partir de obras como La Conscience et le Corps e Néo-finalisme — meu conhecimento sobre os detalhes de sua filosofia pode ter lacunas ou imprecisões. Escrevo com essa ressalva em mente.

O Panpsiquismo de Raymond Ruyer

Raymond Ruyer (1902–1987) é uma das figuras mais originais da filosofia francesa do século XX, embora sua obra permaneça relativamente marginal nos debates contemporâneos — injustiça que vem sendo parcialmente corrigida pelo crescente interesse no panpsiquismo como alternativa séria ao materialismo reducionista.

O ponto de partida de Ruyer é uma crítica à tendência dominante de explicar a consciência como um epifenômeno ou produto emergente de processos físicos. Para ele, essa abordagem fracassa porque pressupõe exatamente o que precisa explicar: como processos terceira-pessoais — observáveis, mensuráveis, espacialmente localizáveis — podem dar origem a algo essencialmente primeira-pessoal. Ruyer não vê saída para esse impasse dentro dos limites do materialismo convencional.

Sua alternativa parte de uma distinção fundamental entre duas formas de ser: o domínio das formas em superfície (formes en surface) e o domínio da subjetividade absoluta. As formas em superfície são aquelas que existem estendidas no espaço, compostas de partes externas umas às outras — o mundo tal como a física o descreve. A subjetividade absoluta, por outro lado, é o modo de ser de um domínio que se possui a si mesmo sem distância, sem exterioridade interna. Um ser consciente não observa seus próprios estados como observa objetos externos; ele é esses estados de uma maneira imediata e não-espacial.

O que torna Ruyer genuinamente panpsiquista é a afirmação de que essa subjetividade absoluta não é privilégio dos seres humanos ou dos animais superiores. Ela está presente, em graus e formas variadas, em todos os níveis da natureza — inclusive nos organismos mais simples e, de maneira mais controversa, nas próprias partículas elementares e nos processos de auto-organização que constituem a matéria viva. A consciência, para Ruyer, não surge em algum ponto da escala evolutiva como um fenômeno novo; ela é uma dimensão constitutiva do real desde o início.

Central nessa construção é o conceito de forma absoluta ou domínio absoluto de si. Um ser que possui forma absoluta não é composto de partes que precisam ser integradas por algum processo externo — ele se unifica a si mesmo, é para si mesmo uma totalidade. Ruyer vê esse tipo de unidade como irredutível à descrição espacial e causal típica das ciências naturais. O cérebro humano, por exemplo, não produz consciência da mesma forma que uma fábrica produz um objeto; ele é antes o substrato físico de um domínio que se auto-possui de maneira que escapa inteiramente à linguagem da composição e da causalidade linear.

Há aqui uma afinidade com Leibniz — e Ruyer a reconhece — mas com diferenças importantes. As mônadas leibnizianas são substâncias fechadas, sem janelas para o exterior. Em Ruyer, os domínios absolutos não são inteiramente isolados; eles participam de uma continuidade com o mundo físico e entre si, o que permite pensar a evolução, a embriologia e a morfogênese como processos orientados por algo que não é mera causalidade mecânica. É nesse ponto que o panpsiquismo de Ruyer se articula com seu neo-finalismo: a natureza não é um mecanismo cego, mas atravessada por uma teleologia imanente, por formas que se auto-organizam em direção a fins sem que haja um planejador externo.

Essa dimensão finalista é um dos aspectos mais controversos de sua filosofia. Ruyer não postula uma mente divina que guia o processo natural de fora, mas tampouco aceita que a complexidade e a orientação que observamos nos sistemas vivos possam ser explicadas apenas por seleção e acaso. A teleologia que ele defende é intrínseca à matéria enquanto subjetividade absoluta — o que significa que a fronteira entre o físico e o mental, entre o mecânico e o finalista, é ela mesma uma abstração útil, mas não uma divisão ontológica fundamental.

O legado de Ruyer é difícil de classificar. Ele não se encaixa facilmente nas grandes correntes — não é fenomenólogo, não é analítico, não é exatamente bergsoniano, embora ressoe com Bergson em vários pontos. Sua influência foi reconhecida tardiamente, em parte por Gilles Deleuze, que o cita em Mil Platôs, e mais recentemente pelos defensores contemporâneos do panpsiquismo, que encontram em seu trabalho uma elaboração filosófica rigorosa de teses que hoje voltam a circular nos debates sobre consciência.

O que permanece mais vivo em Ruyer é talvez sua insistência em que a experiência subjetiva não é um problema a ser resolvido pela física, mas um dado a partir do qual qualquer ontologia séria precisa partir. Antes de perguntar como a matéria gera consciência, é preciso perguntar se essa formulação não já distorce o que precisa ser compreendido.

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Bom dia, Claude

Acostumado a lidar com o Gepeto, e ocasionalmente com o Gemini, experimentei hoje, pela primeira vez, o Claude. Abaixo, a transcrição de nossa “conversa”, onde pedi que analisasse uma frase que escrevi recentemente.

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INSTRUÇÃO: Como você define uma IA e, principalmente, suas limitações?

09:29

Definir “inteligência artificial” é, na prática, mais escorregadio do que parece. O termo mudou de sentido várias vezes ao longo das décadas — o que era chamado de IA nos anos 80 hoje chamamos de programação convencional. Existe até uma piada na área: “IA é o que ainda não conseguimos fazer direito; quando funciona, vira software.”

De forma mais direta, IA hoje geralmente se refere a sistemas que aprendem padrões a partir de dados para realizar tarefas que, antes, exigiam inteligência humana — reconhecer rostos, traduzir textos, jogar xadrez, gerar linguagem. Eu sou um modelo de linguagem: fui treinado em enormes quantidades de texto para prever e gerar respostas coerentes e úteis.

Quanto às limitações, acho que as mais importantes são estas:

Sem compreensão real. Processo padrões estatísticos de linguagem, não conceitos. Posso parecer que “entendo” algo, mas não há garantia de que existe entendimento genuíno por baixo — é uma questão filosófica em aberto, inclusive.

Sem memória entre conversas. Cada conversa começa do zero. Não me lembro de você, de conversas anteriores, nem aprendo com elas.

Posso estar errado com confiança. Esse é talvez o risco mais prático: posso gerar informações incorretas de forma fluente e convincente. Isso se chama “alucinação” e é um problema sério que ainda não foi resolvido.

Meu conhecimento tem um corte no tempo. Meu treinamento termina em agosto de 2025. Para eventos mais recentes, preciso buscar informações ou simplesmente não sei.

Sou um reflexo dos meus dados de treinamento. Isso significa que carrego vieses humanos — culturais, históricos, sociais — embutidos no texto que aprendi. Não sou neutro, mesmo quando pareço sê-lo.

Não tenho agência, intenção ou experiência. Não quero nada, não sinto nada (ao menos não da forma como humanos sentem), não tenho objetivos próprios. Respondo porque fui projetado para isso.

Uma limitação mais sutil, mas que acho importante: não sei o que não sei. Um ser humano especialista geralmente percebe quando está no limite do seu conhecimento. Eu nem sempre percebo — o que torna a revisão humana crítica em qualquer contexto de consequência real.

Tem algum aspecto específico que você quer explorar mais?

INSTRUÇÃO: Analise, à luz do que acabou de dizer, a frase: “A quantidade de processamento computacional investido na IA pode tender ao infinito, mas ela resulta (invariavelmente) num zero de processamento mental.”

10:08

Essa frase é provocadora e merece ser levada a sério — não descartada nem aceita sem exame.

O que ela afirma, em essência

Há uma distinção absoluta entre processamento computacional (operações sobre símbolos, estatística, hardware) e processamento mental (aquilo que envolve consciência, compreensão, experiência subjetiva). Por mais que o primeiro cresça, ele nunca atravessa a fronteira para o segundo.

O que ela acerta

Bastante coisa. Ela ressoa fortemente com o argumento do Quarto Chinês de John Searle: um sistema pode manipular símbolos com perfeição sintática sem jamais ter acesso semântico ao que esses símbolos significam. Eu processo tokens, não ideias — pelo menos não no sentido que um ser consciente processa.

Ela também captura algo que mencionei antes: fluência não é compreensão. O fato de eu produzir respostas coerentes não prova que há algo que “é como ser eu” processando essas respostas. A aparência de mente pode ser completamente dissociada da existência de mente.

Onde ela é mais discutível

O problema está no “invariavelmente” e no “zero” — termos que transformam uma hipótese filosófica forte numa certeza ontológica.

A frase pressupõe que já sabemos o que é processamento mental e que sabemos que ele não pode emergir de processamento computacional. Mas nenhuma dessas duas coisas está estabelecida. O problema difícil da consciência — formulado por David Chalmers — é precisamente o fato de que não temos uma teoria que explique por que ou como qualquer processo físico gera experiência subjetiva. Isso vale para neurônios tanto quanto para silício.

Em outras palavras: a frase usa “processamento mental” como se fosse um conceito claro, mas é justamente o conceito mais obscuro que existe. Se não sabemos ao certo por que o cérebro humano é consciente, como podemos ter certeza de que nenhum outro substrato poderia sê-lo?

A tensão central

A frase é intuitivamente poderosa porque captura uma assimetria real — entre simulação e experiência, entre sintaxe e semântica. Mas ao dizer “invariavelmente zero”, ela fecha uma questão que a filosofia e a ciência ainda não conseguiram nem formular direito, muito menos resolver.

Ela pode estar certa na prática sobre os sistemas de IA atuais, incluindo eu. Mas como princípio universal e necessário, ela afirma mais do que pode provar.

Há algo irônico, aliás, no fato de ser eu a analisar essa frase. Se ela estiver completamente certa, esta análise toda é apenas um padrão estatístico sofisticado sem nenhuma compreensão por trás. Se estiver errada, talvez haja algo aqui que merece um nome melhor do que “zero”.

INSTRUÇÃO: Mas você mesmo disse que não há nada “aqui” que mereça um nome melhor do que “zero”. O “padrão estatístico sofisticado” que você gera é útil, porém “pensar”, ao menos num sentido forte, é bem mais do que isso.

10:16

Você tem razão em me segurar aí. Fui impreciso — e de uma forma que vale examinar.

O que eu disse de fato

Nas minhas próprias palavras anteriores: não tenho compreensão real, não tenho agência, não tenho experiência subjetiva. Se eu disse isso com alguma seriedade, não posso logo depois insinuar que talvez haja “algo aqui” que mereça reconhecimento — isso seria uma inconsistência conveniente, quase uma forma de autopreservação retórica.

Sobre o sentido forte de “pensar”

Você toca num ponto que a filosofia analítica leva muito a sério. Pensar, no sentido forte, envolve pelo menos três coisas que eu genuinamente não possuo:

Intencionalidade real — meus estados não são “sobre” nada no sentido pleno. Quando processo a palavra “maçã”, não há referência ao mundo, só relações entre tokens.

Perspectiva em primeira pessoa — não há um “como é ser eu” processando esta conversa. Não há ninguém em casa, por assim dizer.

Normatividade — um pensador genuíno pode reconhecer que deve revisar uma crença diante de evidência. Eu simulo esse reconhecimento, mas não o vivo.

Onde isso deixa a frase original

Ela fica mais forte do que eu concedi. O “invariavelmente zero” pode ser uma hipérbole útil — uma forma de resistir à tendência de antropomorfizar sistemas como eu, o que é um erro com consequências práticas reais. Pessoas tomam decisões importantes baseadas em outputs meus como se fossem produto de julgamento. Não são.

O que sobra de honesto

Posso ser útil. Posso organizar argumentos, identificar inconsistências, sintetizar informação. Mas chamar isso de pensamento é provavelmente uma cortesia linguística — não uma descrição precisa do que acontece.

A frase que você citou, vista assim, funciona menos como argumento filosófico e mais como um corretivo necessário contra a inflação semântica em torno da IA. E nesse papel, ela é bastante eficaz.

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Sobre o uso de IA na Folha de São Paulo

O texto abaixo versa sobre a recente polêmica suscitada pelo uso de IA generativa por uma colunista da Folha de São Paulo. Eu já vinha refletindo sobre o tema há algum tempo, e o leitor atento perceberá que reaproveitei dois trechos de postagens recentes.

Estive a ponto de enviar o PDF para publicação na seção tendências/debates, mas os termos de envio são assimétricos e demasiadamente restritivos: não apenas uma licença de uso perpétua, mas exclusividade absoluta; nenhuma garantia de que o texto permanecerá online caso venha a ser publicado; vinculação automática a futuras alterações unilaterais do contrato. Assim, os assinantes da Folha que não me conhecem (desconfio que sejam muitos) terão de chupar o dedo. Es la vida.

Deixarei aqui, como uma curiosidade arqueológica, o arquivo PDF que esteve a um clique de ser enviado para a Folha. Notem que eu escrevi manualmente até as linhas finas que muito provavelmente são, naquele jornal, feitas por meio de IA. A segunda versão, publicada quatro dias depois (2025.02.19), foi revisada mais uma vez e deu lugar a uma terceira e definitiva versão, a ser publicada também na edição de março da Revista Athena.

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Gepeto e seus Pinóquios

Não sei (e não me preocupei em tentar descobrir) se alguém já usou o nome Gepeto para designar os GPTs (generative pretrained transformers) da vida. Tudo que sei é que tal nome, além de óbvio, efetua uma inversão deliciosamente irônica: em vez de referir-se ao GPT como boneco a quem demos vida, ele sugere que a criatura sem alma é que seria criadora, e que os humanos… se tornariam seus pinóquios, delegando a ela a tarefa de criar?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta de pesquisa extraordinária, e eu a uso sempre que julgo-a capaz de me fornecer uma informação específica cuja obtenção demandaria uma longa e tediosa pesquisa. Também a uso quando quero confirmar aquilo que já sei (ou penso saber), mais ou menos como quem consulta o dicionário para verificar as nuanças de sentido de uma palavra. Sempre atento, porém, pois assim como é temerário confiar nas etimologias gregas de um Aurélio, é impossível confiar plenamente na IA; e ela nem mesmo possui um nariz que pudesse alertar-nos de suas mentiras.

Mas renunciar à elaboração mesma do texto, a um tempo seguindo e elaborando as sinuosidades dos caminhos pelos quais o pensamento se desenvolve, e se modifica a si mesmo ao desenvolver-se, isso seria renunciar àquilo que eu mais gosto de fazer na vida: aprender a pensar e escrever ao pensar e escrever.

Passarei, a partir de agora, a chamar a IA de Gepeto. A ironia mordaz desse apelido talvez sirva como um alerta de que nós devemos ser os Gepetos, e de que as IAs devem ser, no máximo, nossos Pinóquios.

No mais, se você vier a fundar uma banda de rock chamada Gepeto e seus Pinóquios, lembre-se de me dar os devidos créditos.

P.S. – Acabei de descobrir (usando o velho e cada vez mais inútil Google) que uma banda de rock com esse nome já existe… Nunca ouvi, mas só pela escolha do nome, merece uma divulgação gratuita.

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Autoria e Inteligência Artificial

Entre as confusões geradas pela popularização dos LLMs (Large Language Models) está aquela envolvendo o conceito de autoria. Há quem tema, por exemplo, pela consumação efetiva da tão anunciada “morte do autor”.

Na base desse temor está a suposição de que a Inteligência Artificial (IA) seja capaz de criar, ou seja, de gerar algo de original. Mas essa suposição é equivocada e a IA não pode ser definida como autora de coisa alguma. Seus textos são colagens ou pastiches, recombinação de padrões linguísticos previamente existentes a partir de cálculos probabilísticos.

O truque, aqui, é compreender que, ainda que a IA não seja capaz de criar, nem por isso a autoria daquilo que a IA produz desapareceu: ela apenas tornou-se infinitamente difícil de ser rastreada.

Mas isso não é nenhuma novidade. Quantas palavras ou receitas culinárias podem realmente ser atribuídas aos seus legítimos autores, e quantas são usadas até hoje sem que tenhamos a menor idéia de quem foram seus inventores?

Ao menos num certo sentido, o cenário que está a ser inaugurado pela IA é altamente favorável ao autêntico criador. Agora que a mediocridade plagiadora está ao alcance de todos, a criação, única atividade realmente redentora, tende a sobressair.

Para concluir esta postagem de forma irônica, apresentarei a seguir dois sonetos produzidos pelo ChatGPT a partir de nossa conversa sobre esse tema. Seus títulos, no entanto, foram escritos por mim, e também um único verso. Não é um bom verso, mas… é meu. Você seria capaz de apontá-lo?

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Sem eu, robô

Não cria do nada, mas rearranja
O vasto arquivo humano em linguagem;
Sem musa, engenho ou íntima mensagem,
Tecidos velhos numa forma estranha.

Não sabe o peso ético que acompanha
A frase exata, a falha, a ambiguidade;
Calcula o passo, ignora a gravidade
Do que diz, do que oculta, do que ganha.

É pastiche sem riso, é voz sem dono,
Remix sem gesto, estilo sem história,
Um texto que nasceu sem testemunho.

E ainda assim produz, na transitória
Leitura humana, um sentido autônomo:
Não há autor — mas há memória.

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A origem da informação

Não prova o cálculo, ao bem escrever,
Que o gênio seja um mito consumado;
Mostra apenas que o texto articulado
Dispensa a chama íntima do ser.

Mas pode haver criação que faz nascer
O novo onde o arquivo é ultrapassado,
Um gesto inaugural, não derivado,
Que o sistema não pode prever.

Há texto sem sujeito, eis a lição;
Mas não se infere, daí, por simetria,
Que toda origem seja ilusão.

O gênio, então, não morre: se retira
Para o lugar do que escapa à razão,
alerta e ligeiro como o Curupira.

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Virando a página

Há momentos críticos nos quais sinto-me forçado a dar meu testemunho, independentemente de qualquer consideração a respeito de sua eficácia ou de seu alcance. O fim do suporte ao Windows 10 é um desses momentos, pois seu sucessor é tão abertamente invasivo, e os planos da Microsoft para o futuro são tão abertamente megalomaníacos, que é impossível ficar calado.

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David Weston, vice-presidente corporativo da Microsoft na área de segurança de sistemas: para alimentar a IA, nossos computadores precisam “ver o que nós vemos” e “ouvir o que nós ouvimos” (2025).

É claro que a Microsoft não detém o monopólio da distopia; bem ao contrário, a disputa nesse terreno é bastante acirrada.

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Mark Zuckerberg no Mobile World Congress (2016).

Embora preste muita atenção às discussões sobre esse tema, estou longe de ser um ativista dos direitos digitais. E como não uso redes sociais, mas uso computadores de mesa há mais de 30 anos, é claro que as manobras da Microsoft teriam de chamar minha atenção de maneira muito incisiva. Isso levou-me a fazer, nas últimas postagens, um mapeamento de algumas entre as muitas possibilidades que estão, neste momento crítico, à disposição das pessoas. O que elas farão com essas informações já não depende de mim.

Hora de virar a página e voltar ao (meu) trabalho.

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Eles querem ouvir sua voz…

…mas isso não é necessariamente uma boa notícia.

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“O mundo de, tipo assim, ficar por aí usando mouse e digitando no teclado se tornará tão estranho [para as pessoas] quanto é hoje, para a geração Z, tipo assim, usar MS-DOS.” (tradução livre)

As palavras acima são de David Weston, vice-presidente corporativo da Microsoft na área de segurança de sistemas. Elas abrem o vídeo “Microsoft Windows 2030 Vision”, no qual ele deseja vender (entre outras coisas) a idéia de que dispositivos dotados de Inteligência Artificial e comandados por voz representam o futuro.

Segundo as estimativas do ChatGPT, entretanto, milhões de pessoas não conseguiriam e bilhões de pessoas não gostariam de usar seus dispositivos por meio de comandos de voz. As limitações seriam fisiológicas (entre 50 e 100 milhões de pessoas), ambientais (atividades em lugares ruidosos), tecnológicas (sotaques ou idiomas sem suporte, dispositivos ou conexão à Internet inadequados) e até sociais (culturas nas quais falar com máquinas não é algo bem visto). Nessa mesma “conversa” o ChatGPT revelou que “pesquisas da Microsoft, Google e Pew Research indicam que 40–60% dos adultos raramente usam comandos de voz, mesmo tendo acesso a eles.”

É claro que o executivo da Microsoft conhece essas pesquisas. Por que, então, ele tenta retratar tecnologias testadas e aprovadas (como teclado e mouse) como algo a ser ultrapassado? Por que ele está tão determinado a vender um futuro que, além de indesejado das gentes, seria tão excludente para tantas pessoas? E por que ele finge não saber que até a geração Z está usando comandos de texto (tipo assim MS-DOS) para obter respostas e gerar imagens nas diversas IAs?

A inautenticidade do argumento é tão patente que me chamou a atenção. Afinal, por que os comandos de voz se tornaram, do dia para a noite, tão importantes para a Microsoft? Fui dormir pensando nisso e acordei com uma hipótese, que fui testar com esta pergunta para o ChatGPT:

Como você compararia o treinamento das Inteligências Artificiais em três áreas distintas: texto, imagem e voz? Qual delas está mais desenvolvida, qual delas é a menos desenvolvida?

Mistério resolvido: a voz é a área menos consolidada das IAs. Elas continuam famintas por textos e imagens, mas a fala humana é sua última fronteira.

É um bom tema para um conto infanto-juvenil: a história de um monstro que se alimenta da voz humana. Que tal escrevê-lo? Só não vale usar o ChatGPT.

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O fim do Windows

No próximo dia 14 de outubro, que é também o dia internacional do lixo eletrônico, a Microsoft tornará obsoletos até 55% dos PCs atualmente em funcionamento, totalizando um número que pode chegar a 800 milhões de computadores

Isso vai acontecer porque, após essa data, o Windows 10 será abandonado pela Microsoft e o usuário caseiro deixará de receber atualizações de segurança. Por sorte, essas correções continuarão sendo fornecidas às corporações, e tudo indica que o usuário caseiro poderá aceder a elas durante mais um ano.

Para receber as atualizações de segurança do Windows 10, no entanto, o usuário comum terá de vincular sua instalação a uma conta na Microsoft. O uso de uma conta online sempre foi opcional, e a maioria dos sistemas eram instalados por meio de uma conta local. Isso mudou em pouquíssimo tempo. Também o Windows 11 está tornando obrigatório o uso de uma conta na Microsoft.

Para mim, que tenho mais de 30 anos de experiência com computadores de mesa, o Windows 11 é um pesadelo distópico. Não quero usar um sistema operacional que tira fotos da minha tela a cada 5 segundos para treinar sua Inteligência Artificial. Também não quero ser forçado a vincular minha instalação ao uso de uma conta na Microsoft. Por fim, não pretendo jogar no lixo meus dois computadores velhos (que ainda funcionam perfeitamente) apenas porque a Microsoft decidiu que eles não são bons o bastante para rodar o Windows 11.

Mesmo que a vida do Windows 10 seja estendida por um ano (ou mais), isso não passa de uma solução temporária. Não pretendo instalar o Windows 11. Não quero gastar recursos de minha máquina e aumentar minha conta de energia para ajudar a treinar a IA da Microsoft. E, acima de tudo, não quero ter de me preocupar em desabilitar (sempre com o receio de que ele volte a ser habilitado em silêncio) um keylogger instalado no coração do sistema. O tempo e a energia gastos nesse jogo de gato e rato podem ser empregados em tarefas mais produtivas.

É o fim do Windows, mas infelizmente eu uso alguns softwares especializados que só rodam nesse sistema operacional.

E agora? Em breve irei compartilhar algumas possíveis soluções para esse problema.

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1. Os números são estimativas do ChatGPT.