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Liberta que serás também

flamengo

Para um torcedor que está a despedir-se do futebol, nada poderia ser mais mágico do que a conquista de mais uma Libertadores.

É bacana ver o Flamengo ganhar outro título importante, mas eu gostaria de ter visto as expulsões de Raphael Veiga e de Pulgar. No fim das contas, a agressão de Pulgar ganhou enorme destaque, inclusive internacional, como se ela houvesse definido o resultado da partida; mas quem viu o jogo sabe que a péssima arbitragem argentina (em campo e no VAR) também favoreceu o Palmeiras numa infinidade de lances.

A polêmica só confirma que estou abandonando a arquibancada televisiva en buena hora. O tempo que perco para assistir a uma partida pode ser muito mais bem aproveitado. Ganha o Flamengo a Libertadores, ganho eu a liberdade.

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Novas regras para o futebol

A ficha caiu quando meu time estava jogando uma partida muito importante e eu estava mais interessado em configurar o Linux Mint que deu vida nova a um PC velho. Uma vez que não chego a ser alucinado por informática, esse fato indica que, para mim, assistir a um jogo de futebol tornou-se um programa muitas vezes chato e quase sempre tóxico.

Chato: é claro que as belas jogadas e os belos gols, razões de ser do esporte, ainda acontecem. No entanto, por causa da pressão contínua sobre o adversário que caracteriza o futebol moderno, a bola está em disputa (ou está sendo atrasada na direção da defesa) durante a maior parte do tempo. Ninguém está pedindo que uma partida de futebol se assemelhe ao jogo dos filósofos do Monty Python, mas também não precisava ser a correria interminável de um vulgar filme de ação.

Tóxico: Reis já não mandam anular gols, como aconteceu na Copa Mohammed V de 1968; mais discretos, porém não menos manipuladores, os cartolas de hoje simplesmente compram os resultados. As péssimas arbitragens, que são a regra ao invés de serem a exceção, e a falta de uniformidade na aplicação das normas do jogo, ajudam a tornar enfadonho o espetáculo.

Tudo isso me levou e me levará cada vez mais para longe do futebol. Não consigo enxergar uma solução para aquilo que, nele, se tornou chato, mas seu caráter tóxico poderia ser amenizado com apenas alguns ajustes. Assim, embora eu duvide muito que um sistema corrupto seja capaz de mudar as regras que facilitam sua própria corrupção, resolvi perder um bocadinho de meu tempo propondo algumas mudanças nas regras do esporte.

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1. Quando a bola estiver fora de disputa, o cronômetro será parado. Assim que o jogo recomeçar, o cronômetro voltará a marcar o tempo. É o fim da cera. O time que quiser fazer o tempo passar terá de fazê-lo com a bola nos pés. Seriam dois tempos de 25 ou 30 minutos cada, porém de jogo jogado. Fim dos “acréscimos”, tantas vezes usados para favorecer um dos times.

2. Quando a bola estiver nas mãos do goleiro, ela será considerada fora de disputa (como já acontece na regra atual) e o cronômetro será parado. É o fim da cera dos goleiros, que poderão, por outro lado, decidir sem afobamento como irão recomeçar o jogo. O juiz, por sua vez, não terá de ficar contando 8 segundos como uma criança a brincar de esconde-esconde.

3. O VAR terá de comunicar-se com o árbitro sempre que este trocar um escanteio por um tiro de meta (e vice-versa). Inversões potencialmente decisivas (como essa) não podem ficar ao sabor de decisões equivocadas e devem ser revistas em tempo real. Uma vez que a cooperação entre árbitros de campo e de vídeo se tornar corriqueira, outros erros claros, inclusive disciplinares, poderão ser prontamente corrigidos pelo VAR.

4. Introdução do Desafio ao VAR. Cada técnico terá direito a pedir um “desafio” (uma consulta ao VAR) por cada tempo de jogo. Caso obtenha uma decisão favorável em seu pedido, o técnico continuará tendo direito a um desafio naquele tempo de jogo. Sem essa regra simples, o VAR acaba tornando-se apenas um instrumento extra para a manipulação dos resultados.

5. Também o árbitro da partida terá direito a propor Desafios ao VAR. Os árbitros são forçados a tomar decisões mesmo quando estão distantes do lance ou têm sua visão encoberta. Pedir ajuda não é vergonha; vergonha é tomar uma decisão errada na frente de todos e só descobrir quando o jogo já terminou.

6. O VAR terá de mostrar ao árbitro (e ao público, no telão do estádio) todos os registros da jogada que está em revisão, e não apenas os ângulos que o próprio VAR julga serem mais importantes. Já que a decisão final é do árbitro de campo, o que o VAR precisa fazer é informá-lo, e não impor (às vezes reprisando o lance 20 vezes) um único ângulo que favorece uma única interpretação. Escamotear os diversos ângulos da jogada (que estão, afinal, à disposição) deve ser considerado como uma tentativa de manipular o árbitro e influenciar o resultado.

7. Só poderá haver prorrogação no último jogo (na final) de um torneio. Outra opção seria abolir as prorrogações, principalmente se os próprios jogadores, finalmente consultados, assim decidissem. Em 2018 a Croácia chegou à final da Copa do Mundo com três prorrogações nas costas, ou seja, tendo jogado um jogo inteiro a mais do que seu adversário. Menos descansada (e ainda por cima operada pela arbitragem), a Croácia não conseguiu superar a boa equipe francesa.

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Acredito que as mudanças acima ajudariam a transformar o futebol (e principalmente o nosso futebol sul-americano) num esporte (num produto?) muito mais interessante.

Por outro lado, creio que também seria proveitoso, sobretudo do lado de baixo do equador, dar um aperto disciplinar em árbitros e jogadores. Estes comportam-se como crianças mimadas, o que, além de irritante e cansativo para os adultos, dá um péssimo exemplo para todos, o que é justamente o contrário do que se espera do esporte.

1. Jogadores do time contra o qual foi marcada uma falta não poderiam mais tocar na bola, e muito menos no jogador adversário que recebeu a falta. Eles tampouco poderiam tentar retardar ou atrapalhar a cobrança. Aos infratores, cartão amarelo.

2. Apenas um jogador (não precisa ser o capitão do time) estaria autorizado a questionar ou pressionar o árbitro em cada lance; ele seria, naquele momento, o porta-voz do time e não poderia receber cartão amarelo a não ser que passasse dos limites; em compensação, todos os jogadores que porventura se juntassem a ele na reclamação receberiam cartão amarelo.

3. As simulações incontestáveis passariam a ser invariavelmente punidas com cartão amarelo. Chamo de “simulações incontestáveis” apenas aquelas a respeito das quais não houver a menor dúvida, como a do jogador que é tocado no quadril e cai com a mão no rosto. Nesses casos o VAR poderia intervir.

4. Por fim, árbitros (em campo ou no VAR) poderiam receber uma pontuação negativa sempre que deixassem de aplicar a regra do jogo e poderiam ser “rebaixados” para divisões inferiores quando sua pontuação atingisse um determinado limite. Em casos extremos, poderiam sofrer punições maiores.

Não estou propondo uma caça às bruxas, apenas um pequeno aperto disciplinar que acarretaria, como bônus, um jogo com bem menos interrupções.

Já perdi a conta das partidas escandalosamente manipuladas pelos árbitros, dentro de campo e na cabine do VAR, e não acredito que as mudanças que proponho irão jamais acontecer; mas meu combustível não é a esperança, e saber que tentei contribuir para esse debate é recompensa suficiente. Não estou deitando regras; as regras atuais, que permitem arbitrariedades inadmissíveis, é que foram deitadas.

No mais, levando-se em conta que parei de comer pão, coisa que eu adorava fazer, não será tão difícil assim dispensar o circo.

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O que o futebol me ensinou?

O futebol, que foi toda uma escola de moralidade para Albert Camus, também me proporcionou uma oportunidade de aprendizado. Aconteceu há muitos anos, quando percebi que um determinado locutor usava invariavelmente a expressão choque de cabeça para descrever aquilo que havia sido claramente uma cabeçada de um jogador contra o outro. Qualquer adolescente de 15 anos sabe que os profissionais de imprensa interpretam os fatos de acordo com a linha editorial do jornal para o qual trabalham, mas aquilo era diferente. Os espectadores estavam assistindo às imagens, que muitas vezes não davam margem a dúvidas, mas elas eram deliberadamente falseadas, ao vivo e a cores, pelo discurso do locutor.

Aquilo não era obra do acaso, e tampouco exprimia uma dificuldade cognitiva do locutor em questão. Ele só podia estar obedecendo a uma determinação do veículo para o qual trabalhava. E isso significava, portanto, que (ao menos naqueles casos) a política da emissora era mascarar os fatos em vez de reportá-los

Mas se um veículo de comunicação se dispõe a fazer demonstrações de extremo cinismo numa simples partida de futebol, o que seria ele capaz de fazer, em casos realmente importantes, para preservar assinantes, patrocinadores e verbas governamentais?

Foi uma lição valiosa.

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1. Depois da elaboração deste texto fiz a seguinte pergunta ao ChatGPT: “Tenho notado que locutores de futebol geralmente interpretam cabeçadas intencionais de um jogador sobre outro com uma expressão neutra (e incorreta) como “choque de cabeça”. Por que isso acontece? Existe uma política nos meios de comunicação que tenta ocultar do público possíveis agressões dos jogadores? E se existe, por que isso acontece?” Vale a pena conferir a resposta.

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Hoje tem futebol?

Então tire as crianças da frente da TV

Camus

“Car, après beaucoup d’années ou le monde m’a offert beaucoup de spectacles, ce que finalement je sais sur la morale et les obligations des hommes, c’est au sport que je le dois, c’est au R.U.A. [Racing Universitaire d’Alger] que je l’ai appris.”

Albert Camus¹

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O texto acima foi publicado pela primeira vez em 15 de abril de 1953, num boletim do time argelino no qual um jovem Albert Camus jogou como goleiro; nele, o escritor revela que, no fim das contas, deve ao esporte (ao futebol) tudo o que aprendeu sobre a moral e as obrigações dos homens

Não duvido que muitos jogadores de futebol (não todos) continuem aprendendo, em seus ambientes de trabalho, as competências mencionadas por Camus. Mas o mundo mudou muito de 1953 para cá, e com ele o futebol, que se tornou um negócio bilionário envolvendo não apenas bilheterias, mensalidades de associados e venda de jogadores, mas também patrocínios, direitos de televisão e apostas, muitas apostas.

Com tanto dinheiro envolvido, não é de admirar que o futebol atual tenha se tornado competitivo ao extremo, bem mais parecido com o atletismo do que com o balé, e que a corrupção tenha se tornado um fenômeno generalizado.

Voltarei a esse tema depois, pois ele dá margem a desdobramentos interessantes. Por ora, tenho apenas uma pergunta a fazer.

O que diria Albert Camus (que também era dramaturgo) sobre as (péssimas) atuações dos jogadores de hoje, que por qualquer motivo (ou até sem motivo) levam as mãos ao rosto e caem no gramado contorcendo-se em fingidas dores? E se alguém lhe dissesse que um espetáculo como esse não é apropriado para menores de idade — o que será que ele responderia?

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1. «Ce que finalement je sais sur la morale…». Le Footchiste, 2013.05.14. URL: <https://www.footichiste.com/football-albert-camus/>. Acesso em 2025.10.30.

2. Esse texto foi republicado numa revista francesa em 1957, ano em que Camus ganhou o Nobel de Literatura. The morality of football and the philosophy of Albert Camus, IN Scottish Sport History. URL: <https://www.scottishsporthistory.com/sports-history-news-and-blog/the-morality-of-football-and-the-philosophy-of-albert-camus>. Acesso em 2025.10.30.

Fonte: Andy Mitchell