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De olho na porqueira

Já expliquei que tenho por regra manter-me longe da pequena política. Como quase toda regra, também essa tem suas exceções, e vez por outra sinto um impulso irresistível de fazer uma inspeção de surpresa numa pocilga qualquer.

Isso geralmente acontece quando percebo que a imprensa local não esmiuçou suficientemente um caso que está bem documentado em fontes estrangeiras. O recente escândalo envolvendo a BBC é o exemplo mais recente desse tipo de trabalho.

Outro campo que desperta meu interesse é o da corrupção institucional. Ao contrário da corrupção política, conhecida de todos porque valentemente denunciada por jornalistas que honram sua profissão, a corrupção institucional é mais dissimulada e tende a ser discutida apenas em círculos restritos. Embora seja pervasiva e altamente deletéria, ela raramente é notada e noticiada para um público mais amplo.

A distinção é importante. A corrupção em instituições públicas e privadas é praticada por agentes individuais claramente identificáveis, e caracterizada pela circulação de dinheiro e/ou favores entre eles. Corrupção institucional é outra coisa. Um exemplo muito conhecido e bem documentado é o da indústria de tabaco, que teve êxito em estabelecer um consenso científico em torno da dificuldade de estabelecer inequivocamente que o hábito de fumar faz mal à saúde. Essa incerteza era suficiente para atrasar a regulação do tabaco e manter o lucro em patamares elevados. É essencial compreender que nesse cenário, ao contrário do que acontece na corrupção “comum”, apenas alguns atores eram fundamentalmente corruptos e tinham plena consciência do que estava acontecendo. Muitos cientistas apenas cumpriam regras formais e seguiam protocolos reconhecidos, agindo de boa fé e sem perceber que o consenso científico gerado naquele ambiente institucional corrupto era, ele mesmo, corrupto.

Não tenho tempo (nem vontade), no entanto, para trabalhar nos problemas complexos envolvidos na corrupção institucional, como, por exemplo, a captura de agências reguladoras; também não tenho competência em matemática e estatística para analisar comme il faut a manipulação da produção científica. Em compensação, sou capaz de detectar as artimanhas e falácias usadas pelas corporações para convencer o público de que tudo é feito no seu melhor interesse. É coisa simples que não me tomará demasiado tempo, mas que poderá abrir os olhos de muita gente.

Em breve irei inspecionar as insistentes propagandas (disfarçadas de notícia) das canetas emagrecedoras.

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A BBC errou?

Transformei em artigo uma série de postagens sobre o recente escândalo da BBC, e o resultado foi publicado na edição de dezembro (nº 34) da Revista Athena. A versão em PDF do texto poderá ser consultada logo abaixo.

Leitores curiosos poderão divertir-se examinando as diferenças entre o artigo e as postagens originais. Uma delas, entretanto, ficou inteiramente de fora do artigo. Ela poderá ser consultada aqui.

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Por que evito falar sobre a pequena política

Porquinhos se abraçando na Natureza

Como tantas vezes acontece, a resposta está contida na própria pergunta: evito falar sobre a pequena política porque ela é pequena. Não é que eu, num delírio narcísico, ache-me grande o bastante para ostentar essa “indiferença olímpica” da qual um gigante como Goethe chegou a ser acusado.¹ Minhas razões são bem diferentes. Em primeiro lugar, esse não é o meu trabalho. Não sou jornalista, e muito menos jornalista político; embora procure manter-me informado, pouco (ou nada) teria a acrescentar àquilo que já virou notícia e comentário. Em segundo lugar, este não é o lugar apropriado. Quem quer falar sobre política vai às redes sociais, que são as praças públicas digitais de nossa época.

Nada disso significa, porém, que eu seja um ἰδιώτης; significa apenas que privilegio a grande política (em detrimento da pequena). Quando fiz graduação em História, nada me fascinava mais do que a história das mentalidades; assim, não surpreende que meu mais recente trabalho filosófico (sobre a produção de si e do outro) situe-se na interseção entre ontologia, subjetividade e vida social, porém tão longe quanto possível da pequena política.

Há ocasiões, porém, em que me desvio do meu foco e acabo dedicando um esforço a uma atualidade jornalística. Depois explicarei o porquê dessas exceções. Por ora, deixo aqui um atalho para um desses artigos de ocasião, “A BBC errou?“, que acaba de ser publicado na Revista Athena.

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1. CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Brasília, Edições do Senado Federal, Volume 3, p. 1712.

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A BBC errou?

A BBC errou? A resposta a essa pergunta talvez seja mais complexa do que se poderia esperar. A própria emissora parece querer nos convencer de que cometeu um erro, mas… devemos tomar essa admissão de culpa pelo seu valor de face?

Em seu pedido de desculpas a Trump, a BBC justificou-se dizendo que (a) a impressão de continuidade entre as duas passagens do vídeo foi produzida de forma não intencional e que (b) a emissora teria cometido um “erro de julgamento” (error of judgement)Já comentei o primeiro ponto numa postagem anterior e agora irei comentar o segundo.²

O que vem a ser um “error of judgement”? Este é mais um exemplo daquilo que é chamado, na língua inglesa, de collocation: uma justaposição de palavras que soa natural aos falantes nativos. Error of judgement significa, basicamente, que a pessoa que o cometeu tomou uma decisão errada ou ruim.³

Perguntei ao ChatGPT qual é o sentido dessa collocation, e o robô destacou, como um “ponto importante”, que

diferentemente de “misconduct”, “negligence” ou “wrongdoing”, error of judgement normalmente é usado para indicar que a pessoa agiu de boa-fé, mas errou na análise, não na intenção.

Boa-fé? Seria fácil contradizer a BBC dizendo que ela não cometeu um simples “erro de julgamento”, mas um erro moral, até porque salta aos olhos que suas falhas foram de natureza ética.

Mas talvez seja precisamente isso que a própria emissora deseja. Erros são, por definição, eventos episódicos. Erra o motorista que calcula mal uma curva e bate com o carro (erro de julgamento), erra o adolescente que comete o primeiro furto (erro moral); mas um único erro como esses, ou um único acerto, não basta para definir o caráter de um homem ou sua habilidade ao volante: ao admitir um “erro”, por definição “pontual”, a BBC está, na verdade, buscando para si uma espécie de absolvição: quem jamais errou?

A BBC não “errou”. O que existe na BBC é um viés editorial sistemático que vai muito além das duas edições do discurso de Trump e não se corrige com um pífio pedido de desculpas. A esse respeito, não tenho nada a acrescentar além daquilo que eu mesmo já disse em minha postagem anterior:

Distorcer notícias de forma metódica e deliberada é enviesar a própria democracia. Mas mentir e fazer gaslighting com o público ao ser pego em flagrante consegue ser ainda pior, pois demonstra a vigência de um narcisismo corporativo que infelizmente é, como todo narcisismo, incurável.

Vale a pena comentar a reação da imprensa ao caso da BBC? A rigor, é perda de tempo. Um jornalista dirá que não estamos levando em conta tudo o que a BBC faz de bom, raciocínio que conduziria ao perdão dos mais sanguinários regimes totalitários por terem praticado caridade assistencialista; outro dirá que investigar, checar as fontes e só publicar aquilo que foi muito bem apurado é mais complicado do que pilotar um avião ou executar uma cirurgia; outro ainda dirá que é tudo intriga da oposição.

A debilidade da reação de grande parte da imprensa e o rápido esquecimento do caso são preocupantes, pois poderiam indicar uma cumplicidade tácita com as práticas da BBC. Já imaginaram se as instituições que se arrogam o direito de julgar e banir fake news fossem, elas mesmas, máquinas de propaganda que produzem fake news?

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NOTAS

1. “The BBC would like to apologise to President Trump for that error of judgement.” Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications). Acessado em 2025.11.15. Essa página da BBC é dinâmica, em formato de blog; para que o texto continue sendo consultado facilmente no futuro, imprimi a página em PDF e fiz uma cópia local. Ver também: BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full e BBC’s defence shows it has learnt nothing from scandal.

2. Infelizmente, o foco da imprensa (e da resposta da própria BBC) concentrou-se na edição do discurso de Donald Trump. Este, porém, é apenas um dos temas abordados no memorando de Michael Prescott, e nem mesmo é o mais importante.

3. https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/error-of-judgment.

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A emenda da BBC

Não sei como andam as coisas hoje em dia, mas antigamente as crianças eram ensinadas assim: quebrar o vaso é um erro mais do que perdoável, mas tentar livrar-se da responsabilidade pondo a culpa no gato é uma falta grave.

As analogias são ferramentas argumentativas de segunda classe, mas se eu quiser insistir nessa analogia terei de dizer que a BBC quebrou o vaso de propósito e depois, não havendo gato para pôr a culpa, disse que foi “sem querer” (unintentionally)

O problema é que a BBC escolheu um trecho de um vídeo e juntou-o a outro trecho proferido 54 minutos depois sem deixar transparecer que houve uma edição. O resultado (a montagem ou edição), altamente desfavorável a Trump, era (ou parecia) coerente e apresentava-se como um trecho contínuo de um discurso. Dizer que um resultado como esse foi produzido de maneira não intencional é zombar da inteligência do público.

Não estou preocupado com a reputação de Donald Trump. Aliás, o discurso de Trump é apenas um dos tópicos listados por Michael Prescott em seu memorando à BCC.² Embora não esteja recebendo nenhuma atenção da mídia, há uma outra denúncia nesse relatório que consegue ser ainda mais grave.³

Distorcer notícias de forma metódica e deliberada é enviesar a própria democracia. Mas mentir e fazer gaslighting com o público ao ser pego em flagrante consegue ser ainda pior, pois demonstra a vigência de um narcisismo corporativo que infelizmente é, como todo narcisismo, incurável.

Na próxima postagem irei examinar algumas reações da imprensa aos malfeitos da BBC.

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NOTAS

1. Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications). Acessado em 2025.11.15. Essa página da BBC é dinâmica, em formato de blog; para que o texto continue sendo consultado facilmente no futuro, imprimi a página em PDF e fiz uma cópia local.

2. The devastating memo that plunged the BBC into crisis. Acessado em 2025.11.15.

3. Natasha Hausdorff describes personal BBC experiences after anti-Israel bias revealed in leaked memo. Acessado em 2025.11.15.

FONTES (BBC)

Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications)

BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full

BBC director general and News CEO resign over Trump documentary edit

BBC apologises to Trump over Panorama edit but refuses to pay compensation

Why is Donald Trump threatening to sue the BBC?

Todas as fontes foram consultadas em 2025.11.15.

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Corrupção Esporte Futebol

Novas regras para o futebol

A ficha caiu quando meu time estava jogando uma partida muito importante e eu estava mais interessado em configurar o Linux Mint que deu vida nova a um PC velho. Uma vez que não chego a ser alucinado por informática, esse fato indica que, para mim, assistir a um jogo de futebol tornou-se um programa muitas vezes chato e quase sempre tóxico.

Chato: é claro que as belas jogadas e os belos gols, razões de ser do esporte, ainda acontecem. No entanto, por causa da pressão contínua sobre o adversário que caracteriza o futebol moderno, a bola está em disputa (ou está sendo atrasada na direção da defesa) durante a maior parte do tempo. Ninguém está pedindo que uma partida de futebol se assemelhe ao jogo dos filósofos do Monty Python, mas também não precisava ser a correria interminável de um vulgar filme de ação.

Tóxico: Reis já não mandam anular gols, como aconteceu na Copa Mohammed V de 1968; mais discretos, porém não menos manipuladores, os cartolas de hoje simplesmente compram os resultados. As péssimas arbitragens, que são a regra ao invés de serem a exceção, e a falta de uniformidade na aplicação das normas do jogo, ajudam a tornar enfadonho o espetáculo.

Tudo isso me levou e me levará cada vez mais para longe do futebol. Não consigo enxergar uma solução para aquilo que, nele, se tornou chato, mas seu caráter tóxico poderia ser amenizado com apenas alguns ajustes. Assim, embora eu duvide muito que um sistema corrupto seja capaz de mudar as regras que facilitam sua própria corrupção, resolvi perder um bocadinho de meu tempo propondo algumas mudanças nas regras do esporte.

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1. Quando a bola estiver fora de disputa, o cronômetro será parado. Assim que o jogo recomeçar, o cronômetro voltará a marcar o tempo. É o fim da cera. O time que quiser fazer o tempo passar terá de fazê-lo com a bola nos pés. Seriam dois tempos de 25 ou 30 minutos cada, porém de jogo jogado. Fim dos “acréscimos”, tantas vezes usados para favorecer um dos times.

2. Quando a bola estiver nas mãos do goleiro, ela será considerada fora de disputa (como já acontece na regra atual) e o cronômetro será parado. É o fim da cera dos goleiros, que poderão, por outro lado, decidir sem afobamento como irão recomeçar o jogo. O juiz, por sua vez, não terá de ficar contando 8 segundos como uma criança a brincar de esconde-esconde.

3. O VAR terá de comunicar-se com o árbitro sempre que este trocar um escanteio por um tiro de meta (e vice-versa). Inversões potencialmente decisivas (como essa) não podem ficar ao sabor de decisões equivocadas e devem ser revistas em tempo real. Uma vez que a cooperação entre árbitros de campo e de vídeo se tornar corriqueira, outros erros claros, inclusive disciplinares, poderão ser prontamente corrigidos pelo VAR.

4. Introdução do Desafio ao VAR. Cada técnico terá direito a pedir um “desafio” (uma consulta ao VAR) por cada tempo de jogo. Caso obtenha uma decisão favorável em seu pedido, o técnico continuará tendo direito a um desafio naquele tempo de jogo. Sem essa regra simples, o VAR acaba tornando-se apenas um instrumento extra para a manipulação dos resultados.

5. Também o árbitro da partida terá direito a propor Desafios ao VAR. Os árbitros são forçados a tomar decisões mesmo quando estão distantes do lance ou têm sua visão encoberta. Pedir ajuda não é vergonha; vergonha é tomar uma decisão errada na frente de todos e só descobrir quando o jogo já terminou.

6. O VAR terá de mostrar ao árbitro (e ao público, no telão do estádio) todos os registros da jogada que está em revisão, e não apenas os ângulos que o próprio VAR julga serem mais importantes. Já que a decisão final é do árbitro de campo, o que o VAR precisa fazer é informá-lo, e não impor (às vezes reprisando o lance 20 vezes) um único ângulo que favorece uma única interpretação. Escamotear os diversos ângulos da jogada (que estão, afinal, à disposição) deve ser considerado como uma tentativa de manipular o árbitro e influenciar o resultado.

7. Só poderá haver prorrogação no último jogo (na final) de um torneio. Outra opção seria abolir as prorrogações, principalmente se os próprios jogadores, finalmente consultados, assim decidissem. Em 2018 a Croácia chegou à final da Copa do Mundo com três prorrogações nas costas, ou seja, tendo jogado um jogo inteiro a mais do que seu adversário. Menos descansada (e ainda por cima operada pela arbitragem), a Croácia não conseguiu superar a boa equipe francesa.

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Acredito que as mudanças acima ajudariam a transformar o futebol (e principalmente o nosso futebol sul-americano) num esporte (num produto?) muito mais interessante.

Por outro lado, creio que também seria proveitoso, sobretudo do lado de baixo do equador, dar um aperto disciplinar em árbitros e jogadores. Estes comportam-se como crianças mimadas, o que, além de irritante e cansativo para os adultos, dá um péssimo exemplo para todos, o que é justamente o contrário do que se espera do esporte.

1. Jogadores do time contra o qual foi marcada uma falta não poderiam mais tocar na bola, e muito menos no jogador adversário que recebeu a falta. Eles tampouco poderiam tentar retardar ou atrapalhar a cobrança. Aos infratores, cartão amarelo.

2. Apenas um jogador (não precisa ser o capitão do time) estaria autorizado a questionar ou pressionar o árbitro em cada lance; ele seria, naquele momento, o porta-voz do time e não poderia receber cartão amarelo a não ser que passasse dos limites; em compensação, todos os jogadores que porventura se juntassem a ele na reclamação receberiam cartão amarelo.

3. As simulações incontestáveis passariam a ser invariavelmente punidas com cartão amarelo. Chamo de “simulações incontestáveis” apenas aquelas a respeito das quais não houver a menor dúvida, como a do jogador que é tocado no quadril e cai com a mão no rosto. Nesses casos o VAR poderia intervir.

4. Por fim, árbitros (em campo ou no VAR) poderiam receber uma pontuação negativa sempre que deixassem de aplicar a regra do jogo e poderiam ser “rebaixados” para divisões inferiores quando sua pontuação atingisse um determinado limite. Em casos extremos, poderiam sofrer punições maiores.

Não estou propondo uma caça às bruxas, apenas um pequeno aperto disciplinar que acarretaria, como bônus, um jogo com bem menos interrupções.

Já perdi a conta das partidas escandalosamente manipuladas pelos árbitros, dentro de campo e na cabine do VAR, e não acredito que as mudanças que proponho irão jamais acontecer; mas meu combustível não é a esperança, e saber que tentei contribuir para esse debate é recompensa suficiente. Não estou deitando regras; as regras atuais, que permitem arbitrariedades inadmissíveis, é que foram deitadas.

No mais, levando-se em conta que parei de comer pão, coisa que eu adorava fazer, não será tão difícil assim dispensar o circo.

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O que o futebol me ensinou?

O futebol, que foi toda uma escola de moralidade para Albert Camus, também me proporcionou uma oportunidade de aprendizado. Aconteceu há muitos anos, quando percebi que um determinado locutor usava invariavelmente a expressão choque de cabeça para descrever aquilo que havia sido claramente uma cabeçada de um jogador contra o outro. Qualquer adolescente de 15 anos sabe que os profissionais de imprensa interpretam os fatos de acordo com a linha editorial do jornal para o qual trabalham, mas aquilo era diferente. Os espectadores estavam assistindo às imagens, que muitas vezes não davam margem a dúvidas, mas elas eram deliberadamente falseadas, ao vivo e a cores, pelo discurso do locutor.

Aquilo não era obra do acaso, e tampouco exprimia uma dificuldade cognitiva do locutor em questão. Ele só podia estar obedecendo a uma determinação do veículo para o qual trabalhava. E isso significava, portanto, que (ao menos naqueles casos) a política da emissora era mascarar os fatos em vez de reportá-los

Mas se um veículo de comunicação se dispõe a fazer demonstrações de extremo cinismo numa simples partida de futebol, o que seria ele capaz de fazer, em casos realmente importantes, para preservar assinantes, patrocinadores e verbas governamentais?

Foi uma lição valiosa.

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1. Depois da elaboração deste texto fiz a seguinte pergunta ao ChatGPT: “Tenho notado que locutores de futebol geralmente interpretam cabeçadas intencionais de um jogador sobre outro com uma expressão neutra (e incorreta) como “choque de cabeça”. Por que isso acontece? Existe uma política nos meios de comunicação que tenta ocultar do público possíveis agressões dos jogadores? E se existe, por que isso acontece?” Vale a pena conferir a resposta.