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A BBC errou?

A BBC errou? A resposta a essa pergunta talvez seja mais complexa do que se poderia esperar. A própria emissora parece querer nos convencer de que cometeu um erro, mas… devemos tomar essa admissão de culpa pelo seu valor de face?

Em seu pedido de desculpas a Trump, a BBC justificou-se dizendo que (a) a impressão de continuidade entre as duas passagens do vídeo foi produzida de forma não intencional e que (b) a emissora teria cometido um “erro de julgamento” (error of judgement)Já comentei o primeiro ponto numa postagem anterior e agora irei comentar o segundo.²

O que vem a ser um “error of judgement”? Este é mais um exemplo daquilo que é chamado, na língua inglesa, de collocation: uma justaposição de palavras que soa natural aos falantes nativos. Error of judgement significa, basicamente, que a pessoa que o cometeu tomou uma decisão errada ou ruim.³

Perguntei ao ChatGPT qual é o sentido dessa collocation, e o robô destacou, como um “ponto importante”, que

diferentemente de “misconduct”, “negligence” ou “wrongdoing”, error of judgement normalmente é usado para indicar que a pessoa agiu de boa-fé, mas errou na análise, não na intenção.

Boa-fé? Seria fácil contradizer a BBC dizendo que ela não cometeu um simples “erro de julgamento”, mas um erro moral, até porque salta aos olhos que suas falhas foram de natureza ética.

Mas talvez seja precisamente isso que a própria emissora deseja. Erros são, por definição, eventos episódicos. Erra o motorista que calcula mal uma curva e bate com o carro (erro de julgamento), erra o adolescente que comete o primeiro furto (erro moral); mas um único erro como esses, ou um único acerto, não basta para definir o caráter de um homem ou sua habilidade ao volante: ao admitir um “erro”, por definição “pontual”, a BBC está, na verdade, buscando para si uma espécie de absolvição: quem jamais errou?

A BBC não “errou”. O que existe na BBC é um viés editorial sistemático que vai muito além das duas edições do discurso de Trump e não se corrige com um pífio pedido de desculpas. A esse respeito, não tenho nada a acrescentar além daquilo que eu mesmo já disse em minha postagem anterior:

Distorcer notícias de forma metódica e deliberada é enviesar a própria democracia. Mas mentir e fazer gaslighting com o público ao ser pego em flagrante consegue ser ainda pior, pois demonstra a vigência de um narcisismo corporativo que infelizmente é, como todo narcisismo, incurável.

Vale a pena comentar a reação da imprensa ao caso da BBC? A rigor, é perda de tempo. Um jornalista dirá que não estamos levando em conta tudo o que a BBC faz de bom, raciocínio que conduziria ao perdão dos mais sanguinários regimes totalitários por terem praticado caridade assistencialista; outro dirá que investigar, checar as fontes e só publicar aquilo que foi muito bem apurado é mais complicado do que pilotar um avião ou executar uma cirurgia; outro ainda dirá que é tudo intriga da oposição.

A debilidade da reação de grande parte da imprensa e o rápido esquecimento do caso são preocupantes, pois poderiam indicar uma cumplicidade tácita com as práticas da BBC. Já imaginaram se as instituições que se arrogam o direito de julgar e banir fake news fossem, elas mesmas, máquinas de propaganda que produzem fake news?

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NOTAS

1. “The BBC would like to apologise to President Trump for that error of judgement.” Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications). Acessado em 2025.11.15. Essa página da BBC é dinâmica, em formato de blog; para que o texto continue sendo consultado facilmente no futuro, imprimi a página em PDF e fiz uma cópia local. Ver também: BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full e BBC’s defence shows it has learnt nothing from scandal.

2. Infelizmente, o foco da imprensa (e da resposta da própria BBC) concentrou-se na edição do discurso de Donald Trump. Este, porém, é apenas um dos temas abordados no memorando de Michael Prescott, e nem mesmo é o mais importante.

3. https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/error-of-judgment.

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A emenda da BBC

Não sei como andam as coisas hoje em dia, mas antigamente as crianças eram ensinadas assim: quebrar o vaso é um erro mais do que perdoável, mas tentar livrar-se da responsabilidade pondo a culpa no gato é uma falta grave.

As analogias são ferramentas argumentativas de segunda classe, mas se eu quiser insistir nessa analogia terei de dizer que a BBC quebrou o vaso de propósito e depois, não havendo gato para pôr a culpa, disse que foi “sem querer” (unintentionally)

O problema é que a BBC escolheu um trecho de um vídeo e juntou-o a outro trecho proferido 54 minutos depois sem deixar transparecer que houve uma edição. O resultado (a montagem ou edição), altamente desfavorável a Trump, era (ou parecia) coerente e apresentava-se como um trecho contínuo de um discurso. Dizer que um resultado como esse foi produzido de maneira não intencional é zombar da inteligência do público.

Não estou preocupado com a reputação de Donald Trump. Aliás, o discurso de Trump é apenas um dos tópicos listados por Michael Prescott em seu memorando à BCC.² Embora não esteja recebendo nenhuma atenção da mídia, há uma outra denúncia nesse relatório que consegue ser ainda mais grave.³

Distorcer notícias de forma metódica e deliberada é enviesar a própria democracia. Mas mentir e fazer gaslighting com o público ao ser pego em flagrante consegue ser ainda pior, pois demonstra a vigência de um narcisismo corporativo que infelizmente é, como todo narcisismo, incurável.

Na próxima postagem irei examinar algumas reações da imprensa aos malfeitos da BBC.

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NOTAS

1. Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications). Acessado em 2025.11.15. Essa página da BBC é dinâmica, em formato de blog; para que o texto continue sendo consultado facilmente no futuro, imprimi a página em PDF e fiz uma cópia local.

2. The devastating memo that plunged the BBC into crisis. Acessado em 2025.11.15.

3. Natasha Hausdorff describes personal BBC experiences after anti-Israel bias revealed in leaked memo. Acessado em 2025.11.15.

FONTES (BBC)

Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications)

BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full

BBC director general and News CEO resign over Trump documentary edit

BBC apologises to Trump over Panorama edit but refuses to pay compensation

Why is Donald Trump threatening to sue the BBC?

Todas as fontes foram consultadas em 2025.11.15.

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O que é um fórum de discussão?

Para que a postagem anterior não ficasse longa demais, deixei de falar sobre a importância dos fóruns de discussão. Geralmente gratuitos, eles estão, a meu ver, entre as melhores ferramentas de aprendizado disponíveis na Internet.

Embora também sejam, ao menos num sentido amplo, “redes sociais”, os fóruns são totalmente distintos delas. Um fórum costuma dedicar-se a uma área de conhecimento ou a um tema específico; exceto em eventuais “zonas livres” previamente determinadas, todas as mensagens de um fórum devem estar relacionadas aos seus respectivos tópicos. Os tópicos, por sua vez, não podem ser abertos em qualquer lugar, mas apenas nas seções apropriadas (categorias e subcategorias). Cada fórum institui seu próprio conjunto de regras, cuja aplicação estará a cargo de membros da administração que ostentam o título de moderadores. Estes possuem o poder de mover, editar e apagar mensagens ou tópicos inteiros, e até de banir usuários; um fórum, portanto, é bem menos tolerante com exibições de narcisismo do que uma rede social. É um ambiente muito mais sério, de reflexão e aprendizado, embora evidentemente não exclua manifestações de humor e a formação de laços afetivos.

Existem vários fóruns em Português, mas sua língua franca é o Inglês; quem consegue se comunicar nessa língua tem à sua disposição uma gigantesca quantidade de fóruns sobre todos os assuntos. A maioria deles usa exclusivamente a língua inglesa porque isso simplifica a administração, diminui a ocorrência de desentendimentos e permite que pessoas de todas as partes do mundo conversem e ajudem umas às outras. Alguns fóruns (como o Hydrogenaudio) permitem postagens em outras línguas desde que acompanhadas por uma tradução para o Inglês; outros (como o fórum do Linux Mint) possuem seções dedicadas a outras línguas.

Last but not least, participar de um fórum estrangeiro sobre um tema que consideramos apaixonante é também uma ótima oportunidade para treinar o Inglês (ou a língua do fórum em questão). Erros de ortografia e gramática costumam ser bem tolerados, e a única coisa que realmente importa é não entrar nesses lugares para tirar onda ou jogar conversa fora. Mesmo os iniciantes mais despreparados, desde que demonstrem vontade de aprender e um interesse genuíno nos problemas apresentados, serão (ao contrário de narcisistas e outros espécimes tóxicos) valorizados e respeitados.

Encerro esta postagem com a indicação de três fóruns tradicionais para quem gosta de informática ou precisa de ajuda para resolver um problema nessa área:

https://forum.hardware.com.br (em Português)

https://www.bleepingcomputer.com/forums

https://forums.mydigitallife.net