É bastante provável que uma afirmação como essa, proferida num mundo como o nosso, conduza a uma conclusão imediata e definitiva (como geralmente são as conclusões num mundo como o nosso): seu autor é, ele mesmo, um burro!
Calma, pessoal. “Não existe burrice” é, certamente, uma afirmação polêmica, mas (por incrível que pareça) é defensável.
Ela só irá tornar-se clara, entretanto, se colocarmos entre parênteses a noção genérica de “inteligência” e usarmos, em seu lugar, a noção de resolução de problemas.
O esforço intelectual consiste em equacionar e resolver problemas. Algumas soluções são definitivas: por exemplo, o formato da Terra é esferóide, e não plano. Soluções definitivas são, contudo, a exceção, e não a regra. Grande parte das soluções é (ou deve ser considerada) provisória, pois quase sempre será possível estabelecer um problema em novas bases e encontrar uma solução melhor do que a atual.
Pensar nesses termos equivale a compreender a vida intelectual como uma multiplicidade de esforços singulares, cada qual dedicado a um problema específico.
Isso significa que pessoas incapazes de estabelecer os problemas A, B ou C podem, não obstante, ter muito a ensinar sobre os problemas X, Y e Z. Ou seja, o que existe são competências locais, e não uma “inteligência geral” supostamente capaz de resolver qualquer problema que se apresente. Isso explica, por exemplo, que pessoas absolutamente geniais no universo da informática possam apoiar regimes e movimentos totalitários, ou que doutores e pós-doutores sejam tão capazes de falar bobagens como qualquer outro cidadão, inclusive em temas relacionados a suas próprias especialidades. Não existe chave-mestra; cada problema singular terá de ser estabelecido e resolvido por um esforço não menos singular. É por isso que diplomas não garantem a seus possuidores que todos os problemas (mesmo aqueles relacionados às suas áreas de atuação) serão corretamente equacionados e resolvidos.
Pretendo explicar tudo isso mais detidamente no meu ensaio sobre a noção de problema. Por ora, deixo aqui esta recomendação simples: jamais diga a uma criança que ela é “burra”. Em vez disso, tente ajudá-la a pensar o problema que ela não está conseguindo resolver. Afinal, se revelar-se incapaz de resolver um determinado problema, ou resolvê-lo mal, é sinal de burrice, então somos todos burros.
Em resumo, não nascemos “inteligentes” ou “burros”: nós nos tornamos cada vez mais capazes de equacionar problemas à medida que nos esforçamos para equacionar e resolver problemas, ou, ao contrário, nos tornamos menos capazes ao deixarmos que nossa preguiça embote nossa potência de pensar.
