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Dois encontros com Hermeto Pascoal

Morreu ontem, aos 89 anos, bem no dia do lançamento deste website, o extraordinário Hermeto Pascoal. Jamais havia contado publicamente a história que irei contar a seguir, porém hoje percebi que ela também pertence a Hermeto, e que contá-la é tudo que posso fazer para honrar sua memória.

Ainda nos anos 90 fui de improviso a um show no Canecão a convite de Débora, uma amiga da UFRJ. Lembro-me de ter comprado sapatos novos minutos antes do espetáculo, pois os meus estavam muito velhos e eu não queria passar vergonha em minha primeira (e última) ida ao célebre Canecão.

Hermeto Pascoal foi uma das atrações e minha amiga, que parecia conhecer todos os grandes instrumentistas da época, levou-me ao camarim. Eu não esperava por aquilo e fiquei a um canto, na minha. Num dado momento, Hermeto levantou-se de onde estava, veio até mim e deu-me um abraço.

Muitos anos depois, em 25 de maio de 2013 (sei a data precisa porque tenho uma foto daquele dia), minha mulher e eu fomos ao show de Hermeto Pascoal e Aline Morena no Espaço Furnas Cultural em Botafogo. Estávamos sentados bem no meio da primeira fila, e houve um problema no som. Hermeto ficou zangado, mas não quis atrasar a apresentação e veio tocar fora do palco, junto à platéia, ou seja, exatamente onde nós estávamos sentados. Durante 30 minutos ele fez o show bem à nossa frente, ao alcance das nossas mãos; um tropeço e ele cairia no nosso colo.

Não é todo dia que você vê um bruxo como Hermeto fazendo música praticamente no seu colo, mas é claro que a história no Canecão continua sendo muito mais significativa para mim. Resolvi contá-la por um motivo muito simples: pouco importa, para o público, que eu tenha recebido um abraço de Hermeto; mas que Hermeto tenha se dado ao trabalho de levantar-se para abraçar um completo estranho, isso sim, é de interesse público e diz muito sobre ele.

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