Não sei (e não me preocupei em tentar descobrir) se alguém já usou o nome Gepeto para designar os GPTs (generative pretrained transformers) da vida. Tudo que sei é que tal nome, além de óbvio, efetua uma inversão deliciosamente irônica: em vez de referir-se ao GPT como boneco a quem demos vida, ele sugere que a criatura sem alma é que seria criadora, e que os humanos… se tornariam seus pinóquios, delegando a ela a tarefa de criar?
A Inteligência Artificial é uma ferramenta de pesquisa extraordinária, e eu a uso sempre que julgo-a capaz de me fornecer uma informação específica cuja obtenção demandaria uma longa e tediosa pesquisa. Também a uso quando quero confirmar aquilo que já sei (ou penso saber), mais ou menos como quem consulta o dicionário para verificar as nuanças de sentido de uma palavra. Sempre atento, porém, pois assim como é temerário confiar nas etimologias gregas de um Aurélio, é impossível confiar plenamente na IA; e ela nem mesmo possui um nariz que pudesse alertar-nos de suas mentiras.
Mas renunciar à elaboração mesma do texto, a um tempo seguindo e elaborando as sinuosidades dos caminhos pelos quais o pensamento se desenvolve, e se modifica a si mesmo ao desenvolver-se, isso seria renunciar àquilo que eu mais gosto de fazer na vida: aprender a pensar e escrever ao pensar e escrever.
Passarei, a partir de agora, a chamar a IA de Gepeto. A ironia mordaz desse apelido talvez sirva como um alerta de que nós devemos ser os Gepetos, e de que as IAs devem ser, no máximo, nossos Pinóquios.
No mais, se você vier a fundar uma banda de rock chamada Gepeto e seus Pinóquios, lembre-se de me dar os devidos créditos.
P.S. – Acabei de descobrir (usando o velho e cada vez mais inútil Google) que uma banda de rock com esse nome já existe… Nunca ouvi, mas só pela escolha do nome, merece uma divulgação gratuita.
