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Autoria e Inteligência Artificial

Entre as confusões geradas pela popularização dos LLMs (Large Language Models) está aquela envolvendo o conceito de autoria. Há quem tema, por exemplo, pela consumação efetiva da tão anunciada “morte do autor”.

Na base desse temor está a suposição de que a Inteligência Artificial (IA) seja capaz de criar, ou seja, de gerar algo de original. Mas essa suposição é equivocada e a IA não pode ser definida como autora de coisa alguma. Seus textos são colagens ou pastiches, recombinação de padrões linguísticos previamente existentes a partir de cálculos probabilísticos.

O truque, aqui, é compreender que, ainda que a IA não seja capaz de criar, nem por isso a autoria daquilo que a IA produz desapareceu: ela apenas tornou-se infinitamente difícil de ser rastreada.

Mas isso não é nenhuma novidade. Quantas palavras ou receitas culinárias podem realmente ser atribuídas aos seus legítimos autores, e quantas são usadas até hoje sem que tenhamos a menor idéia de quem foram seus inventores?

Ao menos num certo sentido, o cenário que está a ser inaugurado pela IA é altamente favorável ao autêntico criador. Agora que a mediocridade plagiadora está ao alcance de todos, a criação, única atividade realmente redentora, tende a sobressair.

Para concluir esta postagem de forma irônica, apresentarei a seguir dois sonetos produzidos pelo ChatGPT a partir de nossa conversa sobre esse tema. Seus títulos, no entanto, foram escritos por mim, e também um único verso. Não é um bom verso, mas… é meu. Você seria capaz de apontá-lo?

void

Sem eu, robô

Não cria do nada, mas rearranja
O vasto arquivo humano em linguagem;
Sem musa, engenho ou íntima mensagem,
Tecidos velhos numa forma estranha.

Não sabe o peso ético que acompanha
A frase exata, a falha, a ambiguidade;
Calcula o passo, ignora a gravidade
Do que diz, do que oculta, do que ganha.

É pastiche sem riso, é voz sem dono,
Remix sem gesto, estilo sem história,
Um texto que nasceu sem testemunho.

E ainda assim produz, na transitória
Leitura humana, um sentido autônomo:
Não há autor — mas há memória.

void

A origem da informação

Não prova o cálculo, ao bem escrever,
Que o gênio seja um mito consumado;
Mostra apenas que o texto articulado
Dispensa a chama íntima do ser.

Mas pode haver criação que faz nascer
O novo onde o arquivo é ultrapassado,
Um gesto inaugural, não derivado,
Que o sistema não pode prever.

Há texto sem sujeito, eis a lição;
Mas não se infere, daí, por simetria,
Que toda origem seja ilusão.

O gênio, então, não morre: se retira
Para o lugar do que escapa à razão,
alerta e ligeiro como o Curupira.

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