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Por que evito falar sobre a pequena política

Porquinhos se abraçando na Natureza

Como tantas vezes acontece, a resposta está contida na própria pergunta: evito falar sobre a pequena política porque ela é pequena. Não é que eu, num delírio narcísico, ache-me grande o bastante para ostentar essa “indiferença olímpica” da qual um gigante como Goethe chegou a ser acusado.¹ Minhas razões são bem diferentes. Em primeiro lugar, esse não é o meu trabalho. Não sou jornalista, e muito menos jornalista político; embora procure manter-me informado, pouco (ou nada) teria a acrescentar àquilo que já virou notícia e comentário. Em segundo lugar, este não é o lugar apropriado. Quem quer falar sobre política vai às redes sociais, que são as praças públicas digitais de nossa época.

Nada disso significa, porém, que eu seja um ἰδιώτης; significa apenas que privilegio a grande política (em detrimento da pequena). Quando fiz graduação em História, nada me fascinava mais do que a história das mentalidades; assim, não surpreende que meu mais recente trabalho filosófico (sobre a produção de si e do outro) situe-se na interseção entre ontologia, subjetividade e vida social, porém tão longe quanto possível da pequena política.

Há ocasiões, porém, em que me desvio do meu foco e acabo dedicando um esforço a uma atualidade jornalística. Depois explicarei o porquê dessas exceções. Por ora, deixo aqui um atalho para um desses artigos de ocasião, “A BBC errou?“, que acaba de ser publicado na Revista Athena.

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1. CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Brasília, Edições do Senado Federal, Volume 3, p. 1712.

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Tout Seul

tout seul
Tout Seul (fox chanson), chanté par Yvonne Daumerie Ramos

Estou começando a montar o setup que me permitirá fazer a captura dessa gravação de Yvonne Daumerie. Já fiz várias conversões do analógico para o digital, mas sempre a partir de long-plays. Esta será a primeira vez que irei transpor um disco de 78 rotações, o que irá requerer uma agulha especial e muito trabalho.

A letra de Yvonne é bem fácil de compreender, porém boa parte da última palavra desapareceu juntamente com um pedaço do selo. Há bons motivos para acreditar que a palavra em questão é “Ramos”, e essa informação, caso esteja correta, poderá ajudar a estabelecer a data da gravação.

Pretendo reproduzir esse disco apenas uma vez, justamente quando chegar o momento de fazer a captura do áudio; até lá, só me resta especular sobre seu conteúdo. Encontrei uma referência a um foxtrot de mesmo nome publicado em 1929, primeiramente em Paris e depois em Nova Iorque. Assim, é possível que a canção seja a mesma que foi cantada neste filme de 1934. Se for essa a música, eu apostaria que a versão de Yvonne Daumerie, ainda que tenha sido gravada na mesma época (no início dos anos 1930), é melhor e mais moderna. Veremos.

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O fim do telefone

A telefonia fixa está agonizando: em todo o mundo, a tradicional rede telefônica pública comutada está sendo substituída pela telefonia digital baseada em VoIP (Voice over Internet Protocol).

Há muitas vantagens econômicas, mas as desvantagens são preocupantes: as ligações podem ser interceptadas mais facilmente e as pessoas podem ficar incomunicáveis caso falte energia por um tempo mais prolongado.¹

Mas não é apenas o telefone fixo que agoniza. Por causa do telemarketing e das fraudes, muita gente prefere deixar seu celular no modo avião. Ou seja, o caráter aberto de uma rede pública descentralizada na qual qualquer número pode ligar diretamente para qualquer outro número também está indo para o espaço. Agora as ligações são mediadas por aplicativos, e se eu uso Signal e você ainda usa WhatsApp, nós vivemos em mundos à parte.

Escrevi esta postagem movido por uma experiência recente. Quando uma senhora de mais de 80 anos atende um número desconhecido disfarçando a voz, não resta outra coisa a fazer senão assinar o atestado de óbito do telefone.

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1. The withdrawal of landlines and switch to digital calls. House of Commons, 2024.05.23.

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A BBC errou?

A BBC errou? A resposta a essa pergunta talvez seja mais complexa do que se poderia esperar. A própria emissora parece querer nos convencer de que cometeu um erro, mas… devemos tomar essa admissão de culpa pelo seu valor de face?

Em seu pedido de desculpas a Trump, a BBC justificou-se dizendo que (a) a impressão de continuidade entre as duas passagens do vídeo foi produzida de forma não intencional e que (b) a emissora teria cometido um “erro de julgamento” (error of judgement)Já comentei o primeiro ponto numa postagem anterior e agora irei comentar o segundo.²

O que vem a ser um “error of judgement”? Este é mais um exemplo daquilo que é chamado, na língua inglesa, de collocation: uma justaposição de palavras que soa natural aos falantes nativos. Error of judgement significa, basicamente, que a pessoa que o cometeu tomou uma decisão errada ou ruim.³

Perguntei ao ChatGPT qual é o sentido dessa collocation, e o robô destacou, como um “ponto importante”, que

diferentemente de “misconduct”, “negligence” ou “wrongdoing”, error of judgement normalmente é usado para indicar que a pessoa agiu de boa-fé, mas errou na análise, não na intenção.

Boa-fé? Seria fácil contradizer a BBC dizendo que ela não cometeu um simples “erro de julgamento”, mas um erro moral, até porque salta aos olhos que suas falhas foram de natureza ética.

Mas talvez seja precisamente isso que a própria emissora deseja. Erros são, por definição, eventos episódicos. Erra o motorista que calcula mal uma curva e bate com o carro (erro de julgamento), erra o adolescente que comete o primeiro furto (erro moral); mas um único erro como esses, ou um único acerto, não basta para definir o caráter de um homem ou sua habilidade ao volante: ao admitir um “erro”, por definição “pontual”, a BBC está, na verdade, buscando para si uma espécie de absolvição: quem jamais errou?

A BBC não “errou”. O que existe na BBC é um viés editorial sistemático que vai muito além das duas edições do discurso de Trump e não se corrige com um pífio pedido de desculpas. A esse respeito, não tenho nada a acrescentar além daquilo que eu mesmo já disse em minha postagem anterior:

Distorcer notícias de forma metódica e deliberada é enviesar a própria democracia. Mas mentir e fazer gaslighting com o público ao ser pego em flagrante consegue ser ainda pior, pois demonstra a vigência de um narcisismo corporativo que infelizmente é, como todo narcisismo, incurável.

Vale a pena comentar a reação da imprensa ao caso da BBC? A rigor, é perda de tempo. Um jornalista dirá que não estamos levando em conta tudo o que a BBC faz de bom, raciocínio que conduziria ao perdão dos mais sanguinários regimes totalitários por terem praticado caridade assistencialista; outro dirá que investigar, checar as fontes e só publicar aquilo que foi muito bem apurado é mais complicado do que pilotar um avião ou executar uma cirurgia; outro ainda dirá que é tudo intriga da oposição.

A debilidade da reação de grande parte da imprensa e o rápido esquecimento do caso são preocupantes, pois poderiam indicar uma cumplicidade tácita com as práticas da BBC. Já imaginaram se as instituições que se arrogam o direito de julgar e banir fake news fossem, elas mesmas, máquinas de propaganda que produzem fake news?

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NOTAS

1. “The BBC would like to apologise to President Trump for that error of judgement.” Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications). Acessado em 2025.11.15. Essa página da BBC é dinâmica, em formato de blog; para que o texto continue sendo consultado facilmente no futuro, imprimi a página em PDF e fiz uma cópia local. Ver também: BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full e BBC’s defence shows it has learnt nothing from scandal.

2. Infelizmente, o foco da imprensa (e da resposta da própria BBC) concentrou-se na edição do discurso de Donald Trump. Este, porém, é apenas um dos temas abordados no memorando de Michael Prescott, e nem mesmo é o mais importante.

3. https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/error-of-judgment.