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Novas regras para o futebol

A ficha caiu quando meu time estava jogando uma partida muito importante e eu estava mais interessado em configurar o Linux Mint que deu vida nova a um PC velho. Uma vez que não chego a ser alucinado por informática, esse fato indica que, para mim, assistir a um jogo de futebol tornou-se um programa muitas vezes chato e quase sempre tóxico.

Chato: é claro que as belas jogadas e os belos gols, razões de ser do esporte, ainda acontecem. No entanto, por causa da pressão contínua sobre o adversário que caracteriza o futebol moderno, a bola está em disputa (ou está sendo atrasada na direção da defesa) durante a maior parte do tempo. Ninguém está pedindo que uma partida de futebol se assemelhe ao jogo dos filósofos do Monty Python, mas também não precisava ser a correria interminável de um vulgar filme de ação.

Tóxico: Reis já não mandam anular gols, como aconteceu na Copa Mohammed V de 1968; mais discretos, porém não menos manipuladores, os cartolas de hoje simplesmente compram os resultados. As péssimas arbitragens, que são a regra ao invés de serem a exceção, e a falta de uniformidade na aplicação das normas do jogo, ajudam a tornar enfadonho o espetáculo.

Tudo isso me levou e me levará cada vez mais para longe do futebol. Não consigo enxergar uma solução para aquilo que, nele, se tornou chato, mas seu caráter tóxico poderia ser amenizado com apenas alguns ajustes. Assim, embora eu duvide muito que um sistema corrupto seja capaz de mudar as regras que facilitam sua própria corrupção, resolvi perder um bocadinho de meu tempo propondo algumas mudanças nas regras do esporte.

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1. Quando a bola estiver fora de disputa, o cronômetro será parado. Assim que o jogo recomeçar, o cronômetro voltará a marcar o tempo. É o fim da cera. O time que quiser fazer o tempo passar terá de fazê-lo com a bola nos pés. Seriam dois tempos de 25 ou 30 minutos cada, porém de jogo jogado. Fim dos “acréscimos”, tantas vezes usados para favorecer um dos times.

2. Quando a bola estiver nas mãos do goleiro, ela será considerada fora de disputa (como já acontece na regra atual) e o cronômetro será parado. É o fim da cera dos goleiros, que poderão, por outro lado, decidir sem afobamento como irão recomeçar o jogo. O juiz, por sua vez, não terá de ficar contando 8 segundos como uma criança a brincar de esconde-esconde.

3. O VAR terá de comunicar-se com o árbitro sempre que este trocar um escanteio por um tiro de meta (e vice-versa). Inversões potencialmente decisivas (como essa) não podem ficar ao sabor de decisões equivocadas e devem ser revistas em tempo real. Uma vez que a cooperação entre árbitros de campo e de vídeo se tornar corriqueira, outros erros claros, inclusive disciplinares, poderão ser prontamente corrigidos pelo VAR.

4. Introdução do Desafio ao VAR. Cada técnico terá direito a pedir um “desafio” (uma consulta ao VAR) por cada tempo de jogo. Caso obtenha uma decisão favorável em seu pedido, o técnico continuará tendo direito a um desafio naquele tempo de jogo. Sem essa regra simples, o VAR acaba tornando-se apenas um instrumento extra para a manipulação dos resultados.

5. Também o árbitro da partida terá direito a propor Desafios ao VAR. Os árbitros são forçados a tomar decisões mesmo quando estão distantes do lance ou têm sua visão encoberta. Pedir ajuda não é vergonha; vergonha é tomar uma decisão errada na frente de todos e só descobrir quando o jogo já terminou.

6. O VAR terá de mostrar ao árbitro (e ao público, no telão do estádio) todos os registros da jogada que está em revisão, e não apenas os ângulos que o próprio VAR julga serem mais importantes. Já que a decisão final é do árbitro de campo, o que o VAR precisa fazer é informá-lo, e não impor (às vezes reprisando o lance 20 vezes) um único ângulo que favorece uma única interpretação. Escamotear os diversos ângulos da jogada (que estão, afinal, à disposição) deve ser considerado como uma tentativa de manipular o árbitro e influenciar o resultado.

7. Só poderá haver prorrogação no último jogo (na final) de um torneio. Outra opção seria abolir as prorrogações, principalmente se os próprios jogadores, finalmente consultados, assim decidissem. Em 2018 a Croácia chegou à final da Copa do Mundo com três prorrogações nas costas, ou seja, tendo jogado um jogo inteiro a mais do que seu adversário. Menos descansada (e ainda por cima operada pela arbitragem), a Croácia não conseguiu superar a boa equipe francesa.

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Acredito que as mudanças acima ajudariam a transformar o futebol (e principalmente o nosso futebol sul-americano) num esporte (num produto?) muito mais interessante.

Por outro lado, creio que também seria proveitoso, sobretudo do lado de baixo do equador, dar um aperto disciplinar em árbitros e jogadores. Estes comportam-se como crianças mimadas, o que, além de irritante e cansativo para os adultos, dá um péssimo exemplo para todos, o que é justamente o contrário do que se espera do esporte.

1. Jogadores do time contra o qual foi marcada uma falta não poderiam mais tocar na bola, e muito menos no jogador adversário que recebeu a falta. Eles tampouco poderiam tentar retardar ou atrapalhar a cobrança. Aos infratores, cartão amarelo.

2. Apenas um jogador (não precisa ser o capitão do time) estaria autorizado a questionar ou pressionar o árbitro em cada lance; ele seria, naquele momento, o porta-voz do time e não poderia receber cartão amarelo a não ser que passasse dos limites; em compensação, todos os jogadores que porventura se juntassem a ele na reclamação receberiam cartão amarelo.

3. As simulações incontestáveis passariam a ser invariavelmente punidas com cartão amarelo. Chamo de “simulações incontestáveis” apenas aquelas a respeito das quais não houver a menor dúvida, como a do jogador que é tocado no quadril e cai com a mão no rosto. Nesses casos o VAR poderia intervir.

4. Por fim, árbitros (em campo ou no VAR) poderiam receber uma pontuação negativa sempre que deixassem de aplicar a regra do jogo e poderiam ser “rebaixados” para divisões inferiores quando sua pontuação atingisse um determinado limite. Em casos extremos, poderiam sofrer punições maiores.

Não estou propondo uma caça às bruxas, apenas um pequeno aperto disciplinar que acarretaria, como bônus, um jogo com bem menos interrupções.

Já perdi a conta das partidas escandalosamente manipuladas pelos árbitros, dentro de campo e na cabine do VAR, e não acredito que as mudanças que proponho irão jamais acontecer; mas meu combustível não é a esperança, e saber que tentei contribuir para esse debate é recompensa suficiente. Não estou deitando regras; as regras atuais, que permitem arbitrariedades inadmissíveis, é que foram deitadas.

No mais, levando-se em conta que parei de comer pão, coisa que eu adorava fazer, não será tão difícil assim dispensar o circo.

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