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Liberta que serás também

flamengo

Para um torcedor que está a despedir-se do futebol, nada poderia ser mais mágico do que a conquista de mais uma Libertadores.

É bacana ver o Flamengo ganhar outro título importante, mas eu gostaria de ter visto as expulsões de Raphael Veiga e de Pulgar. No fim das contas, a agressão de Pulgar ganhou enorme destaque, inclusive internacional, como se ela houvesse definido o resultado da partida; mas quem viu o jogo sabe que a péssima arbitragem argentina (em campo e no VAR) também favoreceu o Palmeiras numa infinidade de lances.

A polêmica só confirma que estou abandonando a arquibancada televisiva en buena hora. O tempo que perco para assistir a uma partida pode ser muito mais bem aproveitado. Ganha o Flamengo a Libertadores, ganho eu a liberdade.

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twist like hell

likehell
Trecho de reportagem reproduzido a título de citação (fair use). Abra a imagem em outra aba caso queira ampliá-la.

Antes de concluir esta série de postagens sobre a BBC, farei um rápido adendo acerca do benefício da dúvida, que é um conceito fundamental do Direito e um dos pilares mais importantes da vida em sociedade.

Quem possui ao menos um conhecimento intermediário da língua inglesa sabe que é impossível traduzir a locução “fight like hell” por “lutar como demônios”.

Leitores de má vontade poderão argumentar que esse erro foi cometido pelo jornal O GLOBO de propósito, para (1) provocar a imediata repulsa de uma grande parcela do público religioso e (2) passar a impressão de que Trump teria feito, de fato, um apelo direto à violência em seu discurso.

É nessas horas, contudo, que o historiador (ou jurista, ou mesmo jornalista) mostra que seu trabalho pouco tem a ver com a gritaria da imprensa e das redes sociais. O jornal O Globo, ao menos em seu noticiário (não me refiro aos seus colunistas), é célebre pelos constantes erros de Português. Assim, não deveria nos espantar que o jornal também possa cometer erros ao traduzir línguas estrangeiras.

Houve, sem dúvida, um erro, e um erro cômico de tão primário; e é claro que o jornal deve ser criticado pelos efeitos de sentido que esse erro introduziu, com tanto destaque, no texto. Mas não podemos afirmar categoricamente que houve má-fé, pois pode ter sido um simples caso de ignorância. Ainda que seja possível imaginar que o erro foi intencional, somos obrigados, nesse caso, a conceder o benefício da dúvida.

Totalmente diferente é a situação da BBC no escândalo em que está envolvida, e é por isso que ele é tão relevante para qualquer sociedade que se pretenda democrática. Voltarei a esse tema na próxima postagem.

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A emenda da BBC

Não sei como andam as coisas hoje em dia, mas antigamente as crianças eram ensinadas assim: quebrar o vaso é um erro mais do que perdoável, mas tentar livrar-se da responsabilidade pondo a culpa no gato é uma falta grave.

As analogias são ferramentas argumentativas de segunda classe, mas se eu quiser insistir nessa analogia terei de dizer que a BBC quebrou o vaso de propósito e depois, não havendo gato para pôr a culpa, disse que foi “sem querer” (unintentionally)

O problema é que a BBC escolheu um trecho de um vídeo e juntou-o a outro trecho proferido 54 minutos depois sem deixar transparecer que houve uma edição. O resultado (a montagem ou edição), altamente desfavorável a Trump, era (ou parecia) coerente e apresentava-se como um trecho contínuo de um discurso. Dizer que um resultado como esse foi produzido de maneira não intencional é zombar da inteligência do público.

Não estou preocupado com a reputação de Donald Trump. Aliás, o discurso de Trump é apenas um dos tópicos listados por Michael Prescott em seu memorando à BCC.² Embora não esteja recebendo nenhuma atenção da mídia, há uma outra denúncia nesse relatório que consegue ser ainda mais grave.³

Distorcer notícias de forma metódica e deliberada é enviesar a própria democracia. Mas mentir e fazer gaslighting com o público ao ser pego em flagrante consegue ser ainda pior, pois demonstra a vigência de um narcisismo corporativo que infelizmente é, como todo narcisismo, incurável.

Na próxima postagem irei examinar algumas reações da imprensa aos malfeitos da BBC.

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NOTAS

1. Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications). Acessado em 2025.11.15. Essa página da BBC é dinâmica, em formato de blog; para que o texto continue sendo consultado facilmente no futuro, imprimi a página em PDF e fiz uma cópia local.

2. The devastating memo that plunged the BBC into crisis. Acessado em 2025.11.15.

3. Natasha Hausdorff describes personal BBC experiences after anti-Israel bias revealed in leaked memo. Acessado em 2025.11.15.

FONTES (BBC)

Panorama – Trump: A Second Chance? (Corrections and Clarifications)

BBC chair’s letter to the Culture, Media and Sport Committee in full

BBC director general and News CEO resign over Trump documentary edit

BBC apologises to Trump over Panorama edit but refuses to pay compensation

Why is Donald Trump threatening to sue the BBC?

Todas as fontes foram consultadas em 2025.11.15.

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O caso da BBC

Nos últimos dias a BBC (British Broadcasting Corporation) foi flagrada num malfeito de proporções épicas. Em duas ocasiões diferentes (em 2022 e em 2024, às vésperas das eleições americanas), a BBC editou um vídeo para distorcer deliberadamente um discurso de Donald Trump, fazendo-o dizer algo que ele não disse.

Pouca gente gosta de Donald Trump, sobretudo fora dos Estados Unidos, mas não é disso que se trata. O que está em questão não é a reputação deste ou daquele político, mas a transformação de um veículo de comunicação supostamente imparcial numa agência de propaganda.

Os dois vídeos abaixo são as principais fontes (com acesso gratuito) da denúncia veiculada pelo jornal britânico The Telegraph. Depois voltarei para dizer uma ou duas palavras sobre este escândalo.

How an edited Trump speech exposed BBC bias (2025.11.03)

BBC Newsnight also doctored Trump speech (2025.11.13)

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Diccionario da lingua portugueza

vulgo ‘Moraes’

Moraes
Diccionario da lingua portugueza (1789)

O Dicionário Moraes (ou Morais) dispensa apresentações, mas para aqueles que não conhecem seu autor, Antonio de Moraes Silva (ou Antônio de Morais Silva, ou ainda António de Morais Silva), deixo aqui o atalho para este ótimo artigo.

Eu tenho e consulto há muitos anos uma cópia física da edição comemorativa de 1922 na qual publicou-se o fac-símile da 2ª edição do dicionário, de 1813.

Os atalhos abaixo dão acesso às três primeiras edições da obra. Há também um atalho para a sétima edição, publicada em 1877-1878. A 3ª edição, de 1823, foi a última publicada pelo próprio Moraes.

1ª edição (1789)

2ª edição (1813) 1º volume | 2º volume

3ª edição (1823)

7ª edição (1877-78)

Para quem quiser divertir-se além da conta, aqui estão os 10 volumes da obra enciclopédica de Raphael Bluteau (1638-1734) que Moraes usou como fonte para a elaboração de seu dicionário: Vocabulário Português e Latino.

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Novas regras para o futebol

A ficha caiu quando meu time estava jogando uma partida muito importante e eu estava mais interessado em configurar o Linux Mint que deu vida nova a um PC velho. Uma vez que não chego a ser alucinado por informática, esse fato indica que, para mim, assistir a um jogo de futebol tornou-se um programa muitas vezes chato e quase sempre tóxico.

Chato: é claro que as belas jogadas e os belos gols, razões de ser do esporte, ainda acontecem. No entanto, por causa da pressão contínua sobre o adversário que caracteriza o futebol moderno, a bola está em disputa (ou está sendo atrasada na direção da defesa) durante a maior parte do tempo. Ninguém está pedindo que uma partida de futebol se assemelhe ao jogo dos filósofos do Monty Python, mas também não precisava ser a correria interminável de um vulgar filme de ação.

Tóxico: Reis já não mandam anular gols, como aconteceu na Copa Mohammed V de 1968; mais discretos, porém não menos manipuladores, os cartolas de hoje simplesmente compram os resultados. As péssimas arbitragens, que são a regra ao invés de serem a exceção, e a falta de uniformidade na aplicação das normas do jogo, ajudam a tornar enfadonho o espetáculo.

Tudo isso me levou e me levará cada vez mais para longe do futebol. Não consigo enxergar uma solução para aquilo que, nele, se tornou chato, mas seu caráter tóxico poderia ser amenizado com apenas alguns ajustes. Assim, embora eu duvide muito que um sistema corrupto seja capaz de mudar as regras que facilitam sua própria corrupção, resolvi perder um bocadinho de meu tempo propondo algumas mudanças nas regras do esporte.

void

1. Quando a bola estiver fora de disputa, o cronômetro será parado. Assim que o jogo recomeçar, o cronômetro voltará a marcar o tempo. É o fim da cera. O time que quiser fazer o tempo passar terá de fazê-lo com a bola nos pés. Seriam dois tempos de 25 ou 30 minutos cada, porém de jogo jogado. Fim dos “acréscimos”, tantas vezes usados para favorecer um dos times.

2. Quando a bola estiver nas mãos do goleiro, ela será considerada fora de disputa (como já acontece na regra atual) e o cronômetro será parado. É o fim da cera dos goleiros, que poderão, por outro lado, decidir sem afobamento como irão recomeçar o jogo. O juiz, por sua vez, não terá de ficar contando 8 segundos como uma criança a brincar de esconde-esconde.

3. O VAR terá de comunicar-se com o árbitro sempre que este trocar um escanteio por um tiro de meta (e vice-versa). Inversões potencialmente decisivas (como essa) não podem ficar ao sabor de decisões equivocadas e devem ser revistas em tempo real. Uma vez que a cooperação entre árbitros de campo e de vídeo se tornar corriqueira, outros erros claros, inclusive disciplinares, poderão ser prontamente corrigidos pelo VAR.

4. Introdução do Desafio ao VAR. Cada técnico terá direito a pedir um “desafio” (uma consulta ao VAR) por cada tempo de jogo. Caso obtenha uma decisão favorável em seu pedido, o técnico continuará tendo direito a um desafio naquele tempo de jogo. Sem essa regra simples, o VAR acaba tornando-se apenas um instrumento extra para a manipulação dos resultados.

5. Também o árbitro da partida terá direito a propor Desafios ao VAR. Os árbitros são forçados a tomar decisões mesmo quando estão distantes do lance ou têm sua visão encoberta. Pedir ajuda não é vergonha; vergonha é tomar uma decisão errada na frente de todos e só descobrir quando o jogo já terminou.

6. O VAR terá de mostrar ao árbitro (e ao público, no telão do estádio) todos os registros da jogada que está em revisão, e não apenas os ângulos que o próprio VAR julga serem mais importantes. Já que a decisão final é do árbitro de campo, o que o VAR precisa fazer é informá-lo, e não impor (às vezes reprisando o lance 20 vezes) um único ângulo que favorece uma única interpretação. Escamotear os diversos ângulos da jogada (que estão, afinal, à disposição) deve ser considerado como uma tentativa de manipular o árbitro e influenciar o resultado.

7. Só poderá haver prorrogação no último jogo (na final) de um torneio. Outra opção seria abolir as prorrogações, principalmente se os próprios jogadores, finalmente consultados, assim decidissem. Em 2018 a Croácia chegou à final da Copa do Mundo com três prorrogações nas costas, ou seja, tendo jogado um jogo inteiro a mais do que seu adversário. Menos descansada (e ainda por cima operada pela arbitragem), a Croácia não conseguiu superar a boa equipe francesa.

divisor

Acredito que as mudanças acima ajudariam a transformar o futebol (e principalmente o nosso futebol sul-americano) num esporte (num produto?) muito mais interessante.

Por outro lado, creio que também seria proveitoso, sobretudo do lado de baixo do equador, dar um aperto disciplinar em árbitros e jogadores. Estes comportam-se como crianças mimadas, o que, além de irritante e cansativo para os adultos, dá um péssimo exemplo para todos, o que é justamente o contrário do que se espera do esporte.

1. Jogadores do time contra o qual foi marcada uma falta não poderiam mais tocar na bola, e muito menos no jogador adversário que recebeu a falta. Eles tampouco poderiam tentar retardar ou atrapalhar a cobrança. Aos infratores, cartão amarelo.

2. Apenas um jogador (não precisa ser o capitão do time) estaria autorizado a questionar ou pressionar o árbitro em cada lance; ele seria, naquele momento, o porta-voz do time e não poderia receber cartão amarelo a não ser que passasse dos limites; em compensação, todos os jogadores que porventura se juntassem a ele na reclamação receberiam cartão amarelo.

3. As simulações incontestáveis passariam a ser invariavelmente punidas com cartão amarelo. Chamo de “simulações incontestáveis” apenas aquelas a respeito das quais não houver a menor dúvida, como a do jogador que é tocado no quadril e cai com a mão no rosto. Nesses casos o VAR poderia intervir.

4. Por fim, árbitros (em campo ou no VAR) poderiam receber uma pontuação negativa sempre que deixassem de aplicar a regra do jogo e poderiam ser “rebaixados” para divisões inferiores quando sua pontuação atingisse um determinado limite. Em casos extremos, poderiam sofrer punições maiores.

Não estou propondo uma caça às bruxas, apenas um pequeno aperto disciplinar que acarretaria, como bônus, um jogo com bem menos interrupções.

Já perdi a conta das partidas escandalosamente manipuladas pelos árbitros, dentro de campo e na cabine do VAR, e não acredito que as mudanças que proponho irão jamais acontecer; mas meu combustível não é a esperança, e saber que tentei contribuir para esse debate é recompensa suficiente. Não estou deitando regras; as regras atuais, que permitem arbitrariedades inadmissíveis, é que foram deitadas.

No mais, levando-se em conta que parei de comer pão, coisa que eu adorava fazer, não será tão difícil assim dispensar o circo.

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O que o futebol me ensinou?

O futebol, que foi toda uma escola de moralidade para Albert Camus, também me proporcionou uma oportunidade de aprendizado. Aconteceu há muitos anos, quando percebi que um determinado locutor usava invariavelmente a expressão choque de cabeça para descrever aquilo que havia sido claramente uma cabeçada de um jogador contra o outro. Qualquer adolescente de 15 anos sabe que os profissionais de imprensa interpretam os fatos de acordo com a linha editorial do jornal para o qual trabalham, mas aquilo era diferente. Os espectadores estavam assistindo às imagens, que muitas vezes não davam margem a dúvidas, mas elas eram deliberadamente falseadas, ao vivo e a cores, pelo discurso do locutor.

Aquilo não era obra do acaso, e tampouco exprimia uma dificuldade cognitiva do locutor em questão. Ele só podia estar obedecendo a uma determinação do veículo para o qual trabalhava. E isso significava, portanto, que (ao menos naqueles casos) a política da emissora era mascarar os fatos em vez de reportá-los

Mas se um veículo de comunicação se dispõe a fazer demonstrações de extremo cinismo numa simples partida de futebol, o que seria ele capaz de fazer, em casos realmente importantes, para preservar assinantes, patrocinadores e verbas governamentais?

Foi uma lição valiosa.

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1. Depois da elaboração deste texto fiz a seguinte pergunta ao ChatGPT: “Tenho notado que locutores de futebol geralmente interpretam cabeçadas intencionais de um jogador sobre outro com uma expressão neutra (e incorreta) como “choque de cabeça”. Por que isso acontece? Existe uma política nos meios de comunicação que tenta ocultar do público possíveis agressões dos jogadores? E se existe, por que isso acontece?” Vale a pena conferir a resposta.