Categorias
Conceito Filosofia Linguagem O que é?

O que é coincidência?

O verbo co-incidir significa “incidir ao mesmo tempo”. A palavra é formada de maneira semelhante a co-operar, “trabalhar em conjunto”, e a co-memorar, “celebrar conjuntamente (de forma coletiva) uma memória”.¹

Vejamos um exemplo de coincidência: uma esposa passa em frente a um hotel no exato momento em que seu marido sai de lá com outra mulher.

Por que, nesse exemplo, se diz que houve uma coincidência? Porque marido e esposa, sem que tenha havido uma combinação prévia entre eles, co-incidiram no tempo e no espaço. A coincidência, portanto, é um simples fato que, como qualquer outro, reclama uma explicação. Por que a esposa passou em frente ao hotel justo naquele momento? É possível enumerar várias hipóteses. Talvez ela tenha sido advertida por um detetive particular; talvez ela tenha sido guiada por algum indício ou, quem sabe, por uma intuição; talvez sua presença no local tenha sido meramente casual; talvez exista algo semelhante a uma providência divina.

Pode-se afirmar ou negar cada uma dessas hipóteses (e muitas outras), mas a coincidência nela mesma é o fato (o problema) a ser elucidado.

Afirmar que o acaso explica uma determinada coincidência, portanto, é apenas enunciar uma hipótese entre outras. Isso equivale a dizer, numa linguagem mais técnica, que a relação entre a noção de coincidência e a noção de acaso é sintética, e não analítica: é possível unir as duas noções por meio de um juízo, mas a noção de acaso não está implicada na noção de coincidência.

É exatamente por isso que, para afirmar que uma coincidência ocorreu por acaso, não basta chamar, tautologicamente, a co-incidência de… coincidência. É obrigatório juntar à palavra um marcador linguístico que exclua todas as outras possibilidades: por exemplo, “foi uma simples coincidência”, “foi mera coincidência”, “foi apenas uma coincidência”. O papel desses marcadores é reduzir a coincidência ao puro fato da co-incidência e excluir, de antemão e em definitivo, até mesmo a possibilidade de propor uma hipótese que viesse a explicá-la por uma razão qualquer. Não é por outro motivo que os avisos legais exibidos em filmes trazem sempre um desses marcadores: ainda que a ficção cinematográfica e a realidade fora das telas possam co-incidir na imaginação do espectador, qualquer semelhança é mera coincidência, tradução de purely coincidental.

Assim, quando uma pessoa diz que “não existe coincidência“, é porque ela não chegou a refletir sobre aquilo que está dizendo; e o que ela está realmente tentando dizer é que “nada acontece por acaso“. Ouvir alguém dizer que “não existe coincidência” dói nos ouvidos de quem aprecia o rigor no uso das palavras, e essa dor puramente linguageira independe de qualquer crença ou afirmação filosófica sobre a existência ou inexistência do acaso.

Pode-se dizer, entretanto, que a confusão em torno dessa palavra é um daqueles casos quase “benignos” de imprecisão linguística: causados pela falta de reflexão sobre aquilo que se está a dizer, eles empanam a língua mas não acarretam maiores consequências práticas. Infelizmente, como se verá em futuras postagens da série “O que é?”, existem também imprecisões que eu hesitaria em chamar de benignas, produzidas de forma deliberada para confundir o debate público.

__________

1. Há muitos anos vi uma escritora brasileira (cujo nome não irei declinar) dizer, no programa Sem Censura, que a palavra comemorar deriva de “comer” e “morar”.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *